Carinho e Ternura — Duas formas de cuidar da vida
por Carlos Pereira Martins
Há sentimentos que não se explicam inteiramente por palavras. Podemos aproximar-nos deles, procurar-lhes a origem, descrevê-los, mas fica sempre qualquer coisa por dizer. O carinho e a ternura pertencem a esse território íntimo onde a razão chega, mas não reina.
O carinho nasce, muitas vezes, da afeição e da presença. É uma forma de dizer ao outro, sem necessariamente o pronunciar: «Tu importas-me.» Está no cuidado, na atenção, na lembrança, na vontade de saber se o outro está bem. É uma espécie de fidelidade afectiva que não precisa de grandes gestos para se manifestar. Às vezes, basta perguntar como correu o dia; outras vezes, basta estar.
A ternura é talvez ainda mais profunda. Não é apenas gostar de alguém: é reconhecer a sua fragilidade e acolhê-la sem julgamento. É olhar para o outro e perceber que, por detrás das certezas, das máscaras e das aparentes forças, existe alguém tão vulnerável à dor, à solidão e ao tempo como nós próprios.
Talvez por isso a ternura seja uma das formas mais elevadas de compreensão humana.
Somos seres frágeis. Passamos pela vida convencidos, por vezes, de que somos fortes, autónomos e donos do nosso destino. Mas basta uma doença, uma perda, uma separação, uma palavra cruel ou simplesmente a passagem dos anos para percebermos como somos dependentes dos outros e como precisamos de afecto para permanecer inteiros.
A ternura reconhece essa fragilidade sem a transformar em fraqueza.
Há uma extraordinária sabedoria num gesto terno. Uma mão que ampara, um abraço que permanece um pouco mais do que o habitual, um olhar que compreende sem perguntar, uma palavra que chega quando mais dela precisamos. São gestos aparentemente pequenos, mas podem ter uma importância imensa na vida de alguém.
E talvez seja por isso que, quando envelhecemos, começamos a compreender melhor certas coisas que na juventude nos pareciam secundárias.
Percebemos que a vida não é feita apenas de grandes acontecimentos. É feita sobretudo de pequenos instantes que, no momento em que acontecem, quase não percebemos que são preciosos. Uma conversa à mesa. Uma gargalhada inesperada. Um amigo que telefona sem motivo especial. Uma mão pousada sobre o nosso ombro. Alguém que se lembra de nós.
Depois, o tempo passa.
E aquilo que parecia pequeno torna-se memória. Aquilo que julgávamos banal transforma-se em saudade. E compreendemos, talvez tarde, que a felicidade raramente entra na nossa vida fazendo barulho. Muitas vezes chega silenciosamente, disfarçada de gesto simples, de companhia, de carinho ou de ternura.
O carinho aproxima.
A ternura acolhe.
O carinho acompanha.
A ternura compreende.
O carinho diz: «Estou contigo.»
A ternura acrescenta: «E não precisas de ser diferente daquilo que és para eu permanecer contigo.»
Talvez seja esta a sua dimensão mais bonita: a ternura não exige perfeição. Não ama apenas aquilo que no outro é luminoso. Sabe também aproximar-se das suas sombras, das suas fragilidades, dos seus medos e das suas imperfeições.
Num mundo que tantas vezes valoriza a força, a competição, o sucesso e a aparência, o carinho e a ternura parecem quase actos de resistência. Recordam-nos que uma sociedade verdadeiramente humana não pode ser construída apenas sobre leis, interesses e direitos. Precisa também de consideração, empatia, proximidade e cuidado.
Porque podemos ter razão e, ainda assim, ferir. Podemos dizer a verdade e fazê-lo com crueldade. Podemos vencer uma discussão e perder uma pessoa.
A ternura ensina-nos outra coisa: que nem sempre é mais importante ter razão do que cuidar da relação.
Talvez a verdadeira maturidade esteja precisamente aí: aprender a distinguir o que vale a pena discutir daquilo que vale a pena preservar.
E, quando os anos passam e vamos ficando com menos certezas e mais memórias, começamos a perceber que aquilo que realmente permanece não são as coisas que possuímos, nem sequer os êxitos que julgámos tão importantes. Permanecem as pessoas que amámos, os amigos que nos acompanharam, os abraços que demos e recebemos, as palavras que disseram ou que dissemos quando eram necessárias.
No fim, talvez a vida seja também isto: uma longa aprendizagem sobre a arte de cuidar e de sermos cuidados.
E se houver alguma sabedoria capaz de tornar a existência mais humana, talvez ela possa resumir-se numa coisa muito simples: não passar pela vida sem reparar naqueles que caminham connosco.
Dar carinho enquanto podemos.
Oferecer ternura enquanto temos braços para abraçar.
Dizer que gostamos enquanto ainda há tempo para que o outro o possa ouvir.
Porque há sentimentos que, quando não são ditos, não deixam de existir — mas podem deixar de chegar a quem deles precisava.
E talvez seja essa a mais bela verdade do carinho e da ternura: não mudam o mundo inteiro, mas podem mudar o mundo de uma pessoa. E, às vezes, isso é tudo. E é imenso.
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(1) Nota do Editor:
Carlos Pereira Martins completou 75 anos de vida no dia 24 de Setembro, ou seja, ontem.

