As sílabas marginais/Nelson Ferraz
Que há no homem que desfaz as coisas simples
E caminha trôpego entre os vasos partidos?
Que voz sem língua dialoga com a sombra da cómoda
A estalar ausências como se ardesse?
Uma solidão igual à das madrugadas explica o frio
Nos versos obscuros da liberdade, mas
Que há no homem que não quer ser caneta sem algemas
Ou uma canção sem colcheias de guerra nos óculos?
Um deus pouco sóbrio usa maiúsculas imperfeitas
Para descrever a criação efémera das bestas.
Talvez a guerra continue até que a morte murmure
O nome completo dos bichos, mas
Que fazer às insalubres e longas sílabas do entretanto?


A pulsão do verso é paralela à nossa pulsação cardíaca : o mundo em guerra, em caos, a desmoronar e nós, ” o que fazemos com as sílabas do entretanto”? Digo sempre que os Poetas são os arautos dos tempos que se anunciam…Obrigada, Poeta, por nos abalar…