Guerras? … mas há só uma!
por Carlos Pereira Martins
Sentei-me à mesa redonda de vidro onde, todos os dias, tomo o pequeno-almoço. Um gole de chá, um pedaço de abacate, outro de mamão. Liguei o televisor, na esperança de saber se o Mundo ainda existia lá fora e, sobretudo, em que estado se encontrava.
Num dos canais, falava-se da guerra na Ucrânia. As últimas notícias da noite que acabara de passar. Mais um pedaço de mamão, uma dentada numa tosta com queijo fresco. Mudei de canal. Agora, a guerra no Irão. Um gole de chá — que era uma infusão de lúcia-lima, mas que insisto em chamar chá. Tudo o que fumega, vem numa chávena ou numa caneca, para mim é chá! E não tenciono alterar o meu critério.
Mais um pedaço de tosta com queijo fresco. É proteína, dizem que faz bem. Mudei novamente de canal. Falavam agora da Guerra dos Cem Anos. Detive-me por instantes, mas confesso que me aborreci. E não foi propriamente com a História: foi com o narrador, que me agrediu os ouvidos com um «diria-se»! Há limites para a resistência humana, mesmo à mesa do pequeno-almoço.
Voltei a mudar. Desta vez, a Guerra do Peloponeso. Quem diria! Tantas novidades em formato bélico, logo pela manhã. Acabei o resto do abacate, acompanhado de um pedaço de mamão, que triturei como um verdadeiro Marceau. Entretanto, no novo canal, falava-se da Revolução Francesa. O chá ia já a menos de meio e a televisão continuava a oferecer-me um Mundo em permanente estado de beligerância.
Noutro canal, a Guerra da Independência americana, o extermínio de milhões de indígenas nas Américas e, como complemento histórico, a abolição da escravatura. Uma civilização que, durante séculos, se permitiu transformar seres humanos em mercadoria, com a mesma naturalidade com que negociava terras, animais e colheitas. E, para que não faltasse a nota de requinte, a pena de morte, aplicável à primeira, à segunda ou às vezes que fossem necessárias, se o condenado insistisse em resistir à generosidade dos seus carrascos.
Mudo novamente de canal. Ou não? Mudei.
Era agora a Guerra Civil de Espanha. As milícias franquistas, a violência fratricida e Guernica, com o seu monumental testemunho de morte, imortalizado pela genialidade de Picasso. Seguiram-se as guerras coloniais portuguesas, inglesas, belgas e francesas. Continentes submetidos, povos dizimados, culturas violentadas, vidas sacrificadas em nome de interesses que raramente eram os daqueles que combatiam. Tanto sofrimento, tanta destruição, tanta indignidade humana para alimentar ambições imperiais, preconceitos racistas e apetites de poder.
Em rodapé, anunciavam-se documentários para essa tarde e noite: Hiroshima, Nagasaki, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Uma verdadeira programação de entretenimento, se não fosse o conteúdo tão tragicamente humano.
Alguns canais tinham ainda o mau gosto de utilizar, como separadores ou breves interlúdios entre programas, imagens de violência policial: fardas azuis, capacetes, escudos e bastões, investindo contra cidadãos serenos no Rossio, em Lisboa, e no Porto. Como se a violência, mesmo quando exercida sob a autoridade de um uniforme, pudesse ser reduzida a mais um apontamento televisivo, indiferente à dignidade de quem a sofre.
O pequeno-almoço estava terminado. E, confesso, bastante mais agitado do que seria razoável esperar de uma refeição que começara com chá, abacate e mamão.
Mas ainda me esperava outra espécie de espectáculo. Entre comentadores, locutores e até juízes reformados, multiplicavam-se as certezas, os argumentos jurídicos, as interpretações constitucionais e os juramentos de pés juntos. Cada qual sustentava, com a solenidade própria de quem julga possuir a verdade por escritura pública, que quatro mais dois eram nove. E, se necessário fosse, encontrariam certamente uma disposição legal, uma interpretação jurisprudencial ou uma qualquer excepção matemática que legitimasse a operação.
Desliguei o televisor. Sentei-me por mais uns instantes e decidi que era tempo de recorrer ao meu próprio cérebro, essa extraordinária faculdade que, apesar de tantas tentativas, ainda não entreguei à tutela de comentadores, doutrinadores ou fabricantes de verdades por encomenda.
E tomei uma decisão: não quero que me voltem a falar de «guerras», assim, no plural, como se estivéssemos perante fenómenos independentes, acontecimentos sem relação entre si, capítulos isolados de uma História que se repete por distração ou fatalidade.
Não! Guerras, há só uma!
Uma só, com diferentes geografias, bandeiras, uniformes, idiomas, pretextos e protagonistas. Uma guerra que muda de nome, de século, de cenário e de justificação, mas conserva quase sempre a mesma natureza: a vontade de poder, a apropriação da riqueza, a conquista da influência, a submissão dos outros e a preservação dos privilégios de quem decide sem ter de suportar as consequências das suas decisões.
Os que mandam raramente são os que morrem. Os que decretam raramente são os que enterram os filhos. Os que desenham fronteiras raramente são os que ficam do lado errado delas. E os que anunciam vitórias raramente contabilizam, com a mesma solenidade, os órfãos, os mutilados, os deslocados, as cidades destruídas e as gerações condenadas a herdar o ódio.
Os nomes mudam, as bandeiras sucedem-se, os discursos aperfeiçoam-se. Ora se invoca a pátria, ora a religião, a liberdade, a segurança, a civilização ou a defesa de uma identidade. Há sempre uma causa apresentada como sagrada, uma ameaça descrita como intolerável e uma razão suficientemente nobre para convencer outros a morrer.
E assim se vai servindo a mesma guerra, como um rosário de pinhões, todos bem enfiados no mesmo fio, para que pareçam muitos, diferentes e até inevitáveis.
A guerra é uma só: a que nasce da ambição de quem pode, serve os interesses de quem manda e sacrifica a vida de quem pouco ou nada decide.
O resto são nomes, circunstâncias, discursos e explicações. Por vezes, até muito bem fundamentados. Sobretudo quando não é quem os profere que tem de ir para a frente de combate.
E amanhã, provavelmente, voltarei à minha mesa redonda de vidro, ao meu chá, ao abacate e ao mamão. Talvez ligue novamente a televisão. Mas, se me aparecer outra guerra, já sei o que pensar.
O pequeno-almoço é meu. A estupidez humana é que continua a ser servida em doses universais.

