(continuação de Castelão I)
Regressa à sua terra natal, Rianxo, em 1910, passando a viver na casa dos seus avós, iniciando a prática de medicina como médico rural, mas uma tuberculose que lhe é diagnosticada obriga-o a deslocar-se para a Toxa. Em 1911 vai já aparecer a frequentar um curso de obstetrícia, dirigido por Varela Radio, o qual tem de abandonar por razões de saúde, sendo operado duma adenopatia. Ainda neste ano há algo a registar de grande importância, como as revoltas em Noia, que deram origem a algumas mortes. Mas a acção política também o chama, colaborando no Partido Conservador, do qual o seu pai é o líder, para além de ser um dos fundadores do semanário «El Barbero Municipal», onde escreveu algumas crónicas e também as suas caricaturas.
O ano seguinte, 1912, vai ser de grande importância para Castelao, não só pela sua primeira exposição individual, em Ourense (inaugurada a 15 de Fevereiro), mas também por ser o ano do seu casamento com Virxínia Pereira Renda (19 de Outubro). É o ano em que adere à Liga Agrária de Acção Galega. Colabora também com várias publicações, que tornaram populares as suas caricaturas.
Na terra natal de sua mulher, Estrada, nasce o seu único filho em 1 de Fevereiro de 1914. Continuam as agitações camponesas, desta vez em Ribadumia.
Àquele acontecimento feliz na vida de Castelao, sucede um outro que viria a afectá-lo para o resto da sua vida – um desprendimento de retina, valendo-lhe uma operação que lhe devolve a visão, embora limitada, limitação esta que o leva a abandonar o exercício da medicina, que só não foi definitiva por um outro motivo, que podemos classificar de humanitário, que teve a ver com uma epidemia de gripe em 1918, que o levou a assumir a sua condição de médico de novo e apenas durante este curto período na sua terra natal.
Em 1915, na Exposição Nacional de Belas Artes, em Madrid, recebe a 3.ª medalha pelo tríptico «Cuento de Ciegos»
Havia que procurar outra forma de subsistência e, após prestação de provas, inicia funções no Instituto Xeográfico Estatístico, como auxiliar de estatística, sendo colocado em Pontevedra, no início de 1916, situação que viu melhorada dois anos depois, iniciando, em simultâneo, a função de professor adjunto da cátedra de Desenho, no Instituto de Pontevedra.
Intensificou nesta cidade a sua colaboração com a imprensa regional e, a partir de 1918, colabora no jornal El Sol, de Madrid, colaboração esta que vai manter-se até 1922.
Em Pontevedra, onde residirá até 1936, colabora com alguns dos grupos intelectuais ali existentes, vindo mesmo a ser o decorador de uma representação da Coral Polifónica, de que foi um dos criadores em 1925. Dois anos depois, foi um dos fundadores do Museu de Pontevedra. Também devemos referir a fundação da revista «Nós», em conjunto com Vicente Risco e Otero Pedrayo, a qual viria a ter um papel fundamental na vida política e cultural da Galiza até 1936, data em que se inicia a Guerra Civil de Espanha e o ano em que a revista deixou de publicar-se.

Integrado neste movimento cultural, Castelao inaugurou na Corunha (1920) uma exposição, a que deu o título de «Nós», com 49 desenhos e um autoretrato, exposição essa que percorreu cidades como, nomeadamente, Madrid, Barcelona, Ourense, Santiago de Compostela e outras cidades galegas, exposição essa que viria a dar origem a um álbum com o mesmo título, publicado em 1931.
Na cidade de Santiago de Compostela, a exposição viria a contribuir para o reconhecimento oficial do Seminário de Estudos Galegos, fundado no ano anterior, do qual Castelao se tornou um colaborador assíduo.
No ano de 1919 publica o seu ensaio «Arte e galeguismo», manifestando-se também um outro Castelao, o autor de contos curtos na revista «A Nosa Terra», depois noutras publicações, alguns com ilustrações dele próprio, os quais viriam a dar origem aos primeiros livros de prosa, a que podemos chamar de ficção: «Cousas. Primeiro libro», em 1926, «Cousas. Segundo libro, este de 1929 e «Retrincos», publicado em 1934, embora seja de referir que, durante dois anos, a sua colaboração com a revista seja apenas gráfica. Entretanto, mais precisamente em 1922, publica «Un ollo de vidro. Memorias dun esquelete».
Mas o Castelao político também cedo se manifestou; primeiro, com Vicente Risco, criou a «Irmandade Nazionalista Galega», em 1922, da qual se começa a afastar por causa do silêncio que este movimento galego manteve aquando da ditadura de Primo de Rivera, iniciando-se então a sua aproximação aos movimentos de esquerda, o que terá contribuído para que a prestigiada revista portuguesa Seara Nova tenha tido colaboração sua. Os seus textos políticos, com excepção de «Sempre Galiza» e dos discursos e conferências, podem ler-se no volume III das suas «Obras», em edição da Editorial Galaxia (2000), com introdução de Justo Beramendi. Desta introdução traduzimos:
«Durante um longo período da sua vida, aproximadamente entre 1910 e 1931, a via preferida, e às vezes única, que usa Castelao para se expressar politicamente são os desenhos. Nesse tempo, portanto, o artigo propriamente dito é no seu caso um género menor, meramente complementar do outro. Como veremos no correspondente estudo sobre o seu pensamento político, nesses primeiros vinte anos da sua vida pública é impossível analisarmos apropriadamente a natureza e evolução das suas ideias sem ter devidamente em conta os conteúdos ideológicos da sua obra gráfica, coisa que aqui não podemos fazer. Porém, os poucos textos que publica nesse período fornecem também indícios de sobra neste aspecto.»
Nas posições políticas manifestadas por Castelao, que contempla o período inicial, conservador, devemos seguir o conselho do já citado Justo Beramendi na mesma introdução, pois «… se lemos com atenção esses textos nada há neles, …, que cheire a conservadorismo substantivo.»
(continua)



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