ALGUMAS CRIANÇAS TERÃO QUE FAZER OS SEUS EXAMES DO 4ºANO FORA DAS SUAS ESCOLAS por clara castilho

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Qual a melhor altura para se implementar medidas relativas à escola que se sabe irem ser questionadas? Nas férias, claro! Pois foi o que aconteceu no que diz respeito a novas medidas quanto ao local de realização dos exames do 4º ano. Professores em férias, pais preocupados com a ocupação em férias dos filhos… O Ministério da Educação avisou os directores escolares de que deverão “congregar” no mesmo espaço, nomeadamente nas escolas-sede dos respectivos agrupamentos, “o maior número possível de alunos” do 4.º ano que, em Maio, vão fazer os exames nacionais de Matemática e Português.

A operação logística para a sua realização implica que as provas terão de ser entregues, no próprio dia, por militares da GNR. Vai daí, ir a muitas escolas, onde possa haver só uma turma de 4º ano, é gastar muitas verbas.

Directores de Agrupamentos levantaram a questão da organização das outras crianças nesses dias, de saber quem paga as despesas de deslocações das crianças em locais distantes vários quilómetros.

O rigor vai ao ponto de exigir que a vigilância dos exames deverá seja assegurada por dois professores, escolhidos de entre os que não leccionam o 1.º ciclo e os que não pertencem a um grupo de docência da disciplina sobre a qual incide a prova. A não ser assim, o que poderia acontecer?!:….

Os alunos do 4.º ano que chumbarem na primeira fase terão a possibilidade de repetir as provas a 9 e 12 de Julho. Quem estiver nesta situação terá um período de acompanhamento extraordinário, já depois do final do ano lectivo, apoio que não tem carácter obrigatório.

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Não vou questionar se é bom as crianças fazerem exames, não vou falar da acusação de que chegam à universidade e não sabem nada. Vou, sim questionar o facto de que algumas crianças vão fazer exames numas condições diferentes das outras e que essas condições poderão vir a influenciar as suas prestações. Saindo da espera do ensino oficial, fica ainda a situação dos colégios particulares. Essas crianças não correm o risco de terem de sair do colégio para fazerem o seu exame. E vou questionar que estas medidas nºão sejam tomadas por razões pedagógicas, mas sim por razões economicistas.

Das crianças que conheço, cheias de dificuldades e inseguranças, tenho a certeza que estas medidas vão implicar resultados ainda mais baixos. Não é que advogue o prosseguir sem saber, mas para muitas não é ficar mais um ano que as vai fazer ficarem melhor nas aprendizagens. E vão ficar muito pior noutros aspectos da sua vida. Ainda se se estivesse a levar em conta estas crianças, com algumas medidas que as englobem…. Ah! Mas são dispendiosas! …

Ana Maria Benard da Costa , técnica da área de educação com grande experiência, num artigo no Público de 20.3.13 , veio questionar: “ Como é possível renegar toda a evolução que nestas sete décadas se verificou na orientação educativa? Para além do facto de, em vários dos países considerados mais avançados nesta área, se terem eliminado os exames formais ao longo de toda a escolaridade básica em Portugal vão buscar-se os exemplos da escola primária do tempo dos avós ou mesmo dos bisavós da maioria dos alunos que agora povoam as nossas escolas.

Julgo que os legisladores que estão a decidir estas medidas consideram que faz parte integrante da aprendizagem das crianças o sofrimento e a resistência ao stresse. O prazer de aprender, a confiança dada por ambientes amigáveis, a autoconfiança gerada pelo apoio que evita o fracasso (em vez das profundas marcas criadas pelo insucesso) estarão hoje tão longe dos responsáveis a quem os pais entregam, durante anos, a evolução dos seus filhos?”

A autora acaba com um voto de confiança nos professores, confiança que, confesso, infelizmente não partilho. “Resta-nos uma esperança: a qualidade, a força, a perseverança, a capacidade de luta dos professores, que, quando acabam a sua formatura, fazem para si próprios o juramento de “tornar mais capazes e mais felizes as crianças que lhes foram confiadas”. Veremos.

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