OS MEUS DOMINGOS – A ARTE DE ANDAR A PÉ – por ANDRÉ BRUN

Um Café na Internet
(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

I

Houve um tempo feliz em que o andar de carro eléctrico não dava dores a ninguém. Era na era dos carros de mulas. Vieram depois os ingleses que são sempre incomodativos, veio a energia eléctrica que custa um dinheirão, vieram os conflitos entre a Companhia e a Câmara, vieram, com os novos percursos, as paragenzinhas e as paragens-zonas, veio o permanente duelo de duas péssimas educações: a do público e a do pessoal, vieram por fim a vida cara e as modernas tarifas. De tudo isto resultou que quem quer ir a qualquer parte, especialmente aquela onde tenha que ir, se for inteligente, tiver pressa e pernas, o melhor que tem a fazer é andar a pé.

Cheguei a esta conclusão depois de um aturado estudo. Assim uma tarde, pelas sete e um quarto, experimentei tomar um Gomes Freire (Avenida). Estes carros são muito mais fáceis de tomar para quem tenha, como eu, a goela apertada, do que um Lumiar ou um Dafundo, que ostentam quase o dobro do tamanho.

Chega-se ao Rossio e, depois de ter atravessado a “terra de ninguém” e estremecido ante os efeitos do terrível terratóta de mil novecentos e pona, que deixam a perder de vista os do terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco, busca-se a sombra amena de um poste pintado de branco. Estão duzentas e cinquenta e nove pessoas e todas elas – não sei se já repararam – com cara de ir para o sítio a que nos destinamos. Vê-se de súbito, um sujeito nervoso e impaciente meter a passo largo para a paragem da Rua das Galinheiras e achamos boa ideia. Aí estão só cento e noventa e quatro cidadãos de ambos os sexos à espera. À surrelfa, como quem não quer a coisa, quem for fino como uma agulha de bordar vai então ladeando a Praça da Figueira e chega à paragem da rua dos Canos. Nesse canto está-se em família: apenas sessenta pessoas, quinze militares e quatro meninos dos que já pagam bilhete. O relógio diz-nos, porém, que a nossa família nos espera impaciente há mais de um quarto de hora. O que há de melhor a fazer é cortar em direcção à paragem do Teatro Apolo, onde os carros voltam para o Socorro. Ao chegar lá, verificamos que nos enganámos nas nossas previsões. Este canto é, afinal, concorridíssimo. O preferível é subir S. Lázaro a pé. Na altura do Campo de Santana apanham-se carros com imensa facilidade. Basta só estender a mão e colhê-los, quando é tempo deles e estão em flor. Pelo menos, essa é a ideia que formamos. A realidade, no entanto, é bem diversa. O carro vem quase cheio e as cinco pessoas que para ele treparam connosco estabelecem, depois de nos pisarem, o mais complicado dilema que se pode apresentar em terra portuguesa.

O condutor, após ter autoritariamente puxado a campainha para o carro não seguir, lança um olhar cruel pela plataforma onde há onze passageiros, aparta mentalmente dez e declara:

– O último tem que descer…

Ora, em Portugal, todos nós sabemos quem é o primeiro. Somos nós. Em arte, em literatura, em política, em negócios, não há duas opiniões sobre o caso: o primeiro somos nós. Só a violeta dos bosques, que tem fama de modesta, não pretende nunca, ao que se diz, o primeiro lugar e condescende facilmente em ser a última. Por nosso mal, as violetas não andam de carro eléctrico. Preferem andar em raminhos, sem dúvida para não baralharem o seu aroma discreto aos odores violentos que por lá pairam.

Resumindo: ninguém quer ser o último e o carro não anda porque o condutor é teimoso. O homem repete mais duas ou três vezes o seu estribilho: – “Então quem é que desce?” e termina por ir chamar um polícia. Nesta altura, consultando o relógio, verificamos que o jantar deve estar torrado. A nossa família, que tem sempre um génio péssimo à hora de voltarmos para casa, porque imagina todas as tardes que vimos de onde não devemos vir, vai receber-nos como um cão que entra num bailarico.

Reconhecendo, além disso, que no Campo de Santana estamos a dois passos do Gomes Freire a que nos dirigíamos, decidimos ir a pé, apesar de não sermos o último, bem entendido, e descemos do carro. Aquele que realmente devia ter descido faz comentários desagradáveis, chama-nos: “Finório! Espertalhão!”, os outros passageiros acompanham em coro a voz que nos insulta, o condutor que regressa com um guarda aponta-nos a este e o polícia, rosnando entre dentes, o menos que nos chama é bolchevista. Chegamos por fim a casa estafados, a família trata-nos pessimamente e o jantar está em torresmos e intragável.

Ora, com franqueza, para isto vale mais andar a pé.

17 de Dezembro de 1922

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Ver introdução de Os Meus Domingos em: http://aviagemdosargonautas.net/2013/12/01/os-meus-domingos-andre-brun/

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