O Teatro de Amadores como meio de Animação Sociocultural – por Marcelino de Sousa Lopes*

 

*Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

 

Imagem1O teatro, ao longo dos tempos, tem-se revelado como um dos principais instrumentos da Animação Sociocultural. Entendemos o teatro como meio de Animação, segundo a perspetiva de que fazer teatro é mais importante que ver teatro, isto é, o processo de criação do espetáculo é mais importante do que o espetáculo em si. Este fazer requer procedimentos e implica estratégias que não são utilizadas comummente pelo encenador profissional. Requer-se sobretudo a capacidade de imprimir dinâmicas de intervenção, que articulem o texto com os contextos social e político e que busquem a valorização humana. O plano ético prevalece nesta dinâmica sobre o estético. A ética manifesta-se através do princípio geral de se considerar o teatro (ou uma ação teatral) como estando comprometido com as pessoas e de atribuir à dimensão estética um papel ancilar. Esta última deve compreender referências parateatrais, expressas nos jogos e nas tradições das comunidades. Neste sentido, rejeita-se uma estética que se esgote na ideia de representação do belo e divorciada da vida.

O teatro de Amadores, como meio de Animação Sociocultural, constitui uma ação de compromisso social e, por isso, normalmente surge associado ao conceito alargado de desenvolvimento comunitário.

Consideramos que o teatro como meio de Animação Sociocultural se define por uma série de características, que passamos a referir:

  • a de ser um meio de comunicação direta, propiciadora de uma interação comunicativa. Esta característica é a chave da Animação Sociocultural como primeiro vetor gerador de processos que visam a consciencialização, a participação e a autonomia;

  • a de constituir um excecional modelo organizativo, uma vez que a sua prática facilita o encontro inter-indivíduos. A dinâmica do trabalho teatral vai configurando, progressivamente, através do trabalho coletivo, a distribuição de papéis e de responsabilidades partilhadas, desencadeando debates, ensaios, organizando espaços de trabalho em conjunto. Esta é outra das características chave da Animação Sociocultural, a de favorecer situações de encontro entre as pessoas;

  • a de suscitar dinâmicas de integração social, de criatividade, de participação e de educação. O teatro aborda de forma integrada as três dimensões da Animação Sociocultural: a cultural, a social e a educativa;

  • a de fornecer a utilização de um método crítico e libertador. O teatro favorece a re-presentação, isto é, facilita o distanciamento necessário para se poder tomar consciência da realidade como primeiro passo para poder transformá-la;

  • a de proporcionar a valorização do processo em detrimento do produto. Esse processo deve contemplar a dimensão social, potenciando o relacionamento solidário e um clima de interação permanente entre as pessoas, a educativa, trabalhando esteticamente com palavras carregadas de significados, a cultural, através dos convencionais signos teatrais, como os da cenografia, os adereços, o guarda-roupa, a maquilhagem, a luminotecnia, a sonoplastia;

  • a de promover a expressividade do corpo, ultrapassando e vencendo temores, medos, receios, inibições, para as pessoas se assumirem como livres e comunicativas.

A partir destes princípios orientadores do papel do teatro na Animação Sociocultural, importa ter presente a história da Animação e do Teatro de amadores em Portugal nos anos da grande produtividade e que se localizam nas décadas de 70 e 80 onde sobre a égide da saudosa APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores e das suas Associações Regionais promoviam de forma permanente ação, reflexão e até produção teórica expressa no à Barca e na revista mãos dadas.

O teatro de Amadores é a festa participada, festa que se liga à origem do teatro, ou antes, à essência do teatro, é uma ação onde todos são atores protagonistas com a recusa do papel de espectadores passivos. Este teatro compromete-se com o desenvolvimento humano, apresenta-se com atitudes didáticas e pedagógicas, procurando, sempre a partir da envolvência, romper com o tédio, a resignação e incitar ao auto desenvolvimento, mediante diferentes formas de conceber a Animação através do teatro.

O teatro de Amadores liga-se ao prazer de comunicar, o prazer de estar com o outro, a vontade de realizar tarefas comuns, a partilha de experiências, a capacidade de enfrentar os problemas numa perspetiva de grupo, a crença num amanhã diferente de hoje, o acreditar numa comunicação geradora de educação, tudo isto define a concepção de um teatro que rompe com o espaço convencional e ruma em direcção ao homem que não quer representar para outro homem, mas que quer interagir com ele numa relação aberta, festiva, respeitosa, criativa, confiante, espontânea e fraterna. Isto mesmo nos relata um texto, vindo dos tempos em que todo o teatro em Portugal estava comprometido com a Animação Sociocultural, apresentado num encontro regional de teatro amador do distrito de Santarém, realizado entre 22 e 24 de Outubro de 1976, na localidade de Pego, Abrantes. Aí se lê:

“ Uma praça, um adro, uma eira, uma colectividade recreativa são palcos utilizáveis… pela aldeia mais recôndita, pelo lugarejo mais inacessível, por todo o país, o prazer de “fazer teatro” se estende a vastas camadas da população, em particular os jovens. O entusiasmo, a alegria dessa juventude em dinamizar culturalmente o seu local de vivência, o seu dia a dia é bem patente; daí várias actividades culturais preenchem serões, tardes, horas e horas de puro lazer, de franco convívio e não só, procuram dar ao seu trabalho perspectivas inseridas num contexto de transformação social no encontro de novas alternativas de relações humanas; e é neste trabalho de intervenção cultural que o teatro surge como uma das formas mais populares, mais comunicativas, mais acessíveis e com profundas tradições em cada local.”

(texto difundido pela Associação Regional de Teatro de Amadores de Santarém, (1976, Outubro. s/a)

Um teatro ainda ligado aos valores da libertação, da consciencialização e à promoção da pessoa, no sentido de a levar a vencer o fatalismo, a resignação, a timidez, a desconfiança do homem no outro homem, a apatia e os temores.

“ (…) O teatro que aqui defendemos é para ser feito nas fábricas, oficinas. (…) O teatro que aqui defendemos é para ser feito nas colectividades de cultura e recreio não para simplesmente preencher o ócio de uns tantos e amealhar umas coroas, mas sim promover a associação de pessoas que viajam no mesmo barco, levá-las a um mais profundo conhecimento de si mesmas e da realidade que as envolve,”

(Revista de Mãos Dadas, 1978, n.º 20 s/a)

Ao concluir esta missiva reflito sobre a necessidade de espalhar e difundir o legado da APTA em prol do Teatro de Amadores e lanço o desafio para quando a edição de uma obra sobre o Teatro de Amadores em Portugal?

É urgente a ressurreição do movimento do Teatro de Amadores em Portugal é imperioso o ressurgir da APTA como projeto efetivo de mobilização e coordenação do teatro de Amadores em Portugal. Vamos então dar de novo as mãos e fazer reaparecer a nossa APTA.

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