Três anos mais tarde, quando regressou de Angola, voltou aos ensaios, desta vez da opereta Mam’zelle Nitouche, cuja estreia, a 10 de Janeiro de 1932, inaugurou um intenso ano de teatro. Redol integrou este elenco com uma discreta participação como “Roberto”.
No mesmo ano, Redol participou em À Sesta, peça em 1 acto, de “costumes ribatejanos”, da autoria de Faustino dos Reis Sousa, estreada a 24 de Abril no Teatro Club Vilafranquense.
Redol só voltaria à cena em 1934, representando novamente o seu “número” de estreia, o “Largo da Estação”, desta vez mais actual do que nunca, na revista Bela Dona. Este espectáculo, estreado no Cinema-Teatro de Vila Franca, a 7 de Maio, integrava alguns números das revista Ida e Volta (como o de Redol) e de uma outra, Rosa Branca, esta levada à cena em 1929. Este espectáculo, o último em que participou como actor, chegou a ser adiado e desmarcado, apesar de integrar a homenagem a um ilustre da terra, que todos estimavam. A comissão de homenagem dissolveu-se, quando alguns dos seus membros – conotados com o regime e ligados ao poder local, que pretendia demolir o degradado Cinema-Teatro (fronteiriço ao “Largo da Estação”), com o intuito de uma suposta rentabilização económica do local – entenderam que aquele espectáculo, levado à cena precisamente naquele espaço das festas do povo vilafranquense, poderia ser interpretado como uma afronta à intenção da edilidade. Esta interpretação de Redol foi, com efeito, uma tomada de posição a favor da recuperação daquela colectividade como lugar de cultura, apoiada pelo público, que acorreu massivamente ao espectáculo, e clarificada, alguns dias depois, por dois artigos da sua autoria publicados no Mensageiro do Ribatejo (26 de Maio e 2 de Junho de 1934). Redol não voltou a representar, mas a atracção pela cena manteve-se e sempre com esta determinação de defesa e promoção dos mecanismos da cultura popular.
Da intensa ligação de Alves Redol a colectivos teatrais, amadores e profissionais, destaca-se a sua participação, provavelmente a partir de 1942, na tertúlia criada em torno de Gino Saviotti, director do Instituto de Cultura Italiana, em Lisboa, que deu origem ao Círculo de Cultura Teatral (1945) e ao Teatro Estúdio do Salitre (1946-1950), tentativas pioneiras de renovação do teatro em Portugal nos anos 40. Ali se estrearam as suas peças Maria Emília e O meninos dos olhos verdes. A montagem cénica de Forja, escrita a pensar naquele Teatro, foi proibida pela Censura. O contacto que, naquele e noutros contextos em que se moveu, foi estreitando com as novas práticas dramatúrgicas fez com que, não se desvinculando do realismo, evoluísse, desde o início do seu percurso de dramaturgo, para processos de “teatralização” do teatro, incorporando propostas referidas, sobretudo, aos teatros russo, alemão, francês e italiano.
Depois da publicação e, sobretudo, da primeira representação de Maria Emília na inauguração do Teatro Estúdio do Salitre, a sua ligação ao meio teatral intensificou-se, ainda que as prioridades da militância política se sobrepusessem por vezes às da actividade literária e artística. Durante décadas, tanto no limitado circuito profissional de então, como na vasta rede de grupos amadores, associações e sociedades recreativas, foi-se ouvindo falar do teatro de Redol e, em especial, de Forja. Até três anos antes da sua morte, esta foi a sua única peça publicada em livro, embora proibida de ser encenada. Este facto, que também contribuiu para aguçar a curiosidade em torno da obra, talvez explique a razão por que, no cartaz que publicitava a sua primeira montagem cénica desta peça (que ninguém ainda vira representado em Portugal, que poucos haviam lido, mas de que muitos tinham ouvido falar), se podia ler o slogan: “uma obra famosa do teatro português”.
O estudo do seu espólio teatral veio revelar que a criação dramática foi uma constante na sua vida de escritor e que, mesmo depois da “frustração” de ver Forja censurada e quando todos julgaram que tinha desistido, continuou a criar personagens e ficções para teatro e a interpelar, por seu intermédio, o mundo e os homens do seu tempo (note-se também que foram encontrados, no seu espólio, várias peças incompletas e esboços).
As quatro peças publicadas, mesmodepois de se conhecerem as restantes que este volume integra, continuarão porventura a ser consideradas as mais paradigmáticas da sua dramaturgia, mais pela consistência da escrita e pelo que representaram nos períodos históricos em que surgiram do que pela síntese que configuram do teatro redoliano (à qual os inéditos poderão acrescentar dados de análise).
Redol considerou-se dramaturgo a partir de Maria Emília. Esta peça em um acto, publicada na revista Vértice (Maio de 1945), foi escolhida, logo no ano seguinte, a 30 de Abril (e não de Março, como surge no programa), para o espectáculo inaugural do Teatro-Estúdio do Salitre, com encenação de António Vitorino, bem como, em 1947, para a “inauguração” da nova orientação reportorial da centenária Sociedade de Instrução Guilherme Coussul, impulsionada por Jacinto Ramos e José Viana. Esta auspiciosa proximidade temporal, entre a publicação de um texto e a respectiva montagem cénica, não teve paralelo no seu percurso teatral.
Seguiu-se-lhe Forja, “tragédia” em três actos, que chegou aos leitores numa edição de autor, em 1948 (e não em 1942, como, certamente por lapso, surge mencionado em algumas edições das Publicações Europa-América). A estreia absoluta da peça deu-se em Moçambique, em 1965, numa produção dos amadores do Teatro de Ensaio do Clube Recreativo do Buzi, com encenação de Salvador Rego, de que Redol só veio a ter conhecimento posteriormente e a que não assistiu. Estes factos explicam o reconhecimento de Redol no prefácio à reedição de Forja: “Reedito-aem homenagem ao grupo de actores profissionais que a julgaram capaz de defrontar o público há alguns anos e aos amadores do Buzi, participantes na aventura de apresentá-la no Festival de Teatro de Manica e Sofala” (1966: 33). Em Portugal, foi levada à cena no Teatro Laura Alves, em Lisboa, representada por actores profissionais e encenada por Jorge Listopad, a 6 de Dezembro de 1969, vinte e um anos após a edição em livro.
No que concerne à edição do seu teatro, verifica-se um interregno de quase vinte anos depois da sua primeira publicação, uma vez que só na segunda metade da década de 60 a editora Europa-América – com a qual o escritor assinara contrato em 1965 – decidiu publicar a sua obra dramática completa. Em 1966, as versões reescritas de Forja e de Maria Emília (por esta ordem) foram incluídas num único volume, Teatro I (reeditado em 1970). Maria Emília foi ainda publicada, em versão integral, em duas antologias organizadas por Luiz Francisco Rebello: Teatro Português do Romantismo aos nossos dias: Cento e vinte anos de literatura teatral portuguesa (s.d. [1960]), incluída nos trinta textos que o organizador da obra considera mais representativos do período assinalado; e Teatro Estúdio do Salitre, 50 anos (1996), integrada num conjunto de nove peças em um acto, representadas naquele teatro.
Em 1967, a Europa-América publicou o Teatro II – O destino morreu de repente, desta vez inscrevendo o título da peça na própria capa (contrariamente à orientação dada no primeiro volume). Iniciada havia “cerca de dez anos” (Redol 1967: 11), a peça teve dois títulos provisórios – Destino & Cª e Jogo dos Mitos Cansados – e foi diversas vezes anunciada por Redol em entrevistas, desde, pelo menos, 1961. Dedicou-a aos amigos Joaquim Namorado, Arquimedes da Silva Santos e Deniz Jacinto, destacados companheiros do movimento neo-realista português (em particular, os dois primeiros) e dinamizadores importantes das artes (e do teatro em especial, no caso dos dois últimos).
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