EU IA ESCREVER SOBRE HIPOCRISIA…
por Adão Cruz
…E desisti.
Costumo ir para um sítio muito calmo, na margem direita do Rio Douro, em Atães, Gondomar, chamado Marecos. Há um estreito caminho, em parte alcatroado, que nos permite ladear a margem, mesmo por debaixo da acolhedora sombra das árvores. Estacionei o carro frente ao rio, permaneci alguns minutos a olhar a serenidade das águas e a sorver o silêncio. Existe ali um pequeno clube náutico, Clube Náutico de Marecos, e um modesto bar com uma pequena esplanada. É um recanto maravilhoso. Se não soubéssemos onde estávamos e nos dissessem que estávamos na Amazónia, acreditávamos. Ontem, sentei-me na esplanada a beber uma mini, com um sol radioso a bater-me em cheio na cara.
Ao fim de alguns minutos dormitava, magicando sobre um texto que queria escrever e a que gostaria de dar o título de “Reflexão sobre a hipocrisia”. Tinha na ideia começar com o exemplo do que se passa na Assembleia da República, aquando das comemorações do 25 de Abril, onde os cravos parecem murchar com a hipocrisia dos discursos que lhes caem em cima. A hipocrisia sempre me causou náuseas, permanecendo na minha mente como uma das atitudes humanas mais covardes e também mais difíceis de compreender, pois há sempre uma distância muito grande entre o que dizemos defender e o que praticamos. Penso que a hipocrisia é bem mais grave do que a mentira, pois não só mente como tenta fazer da mentira uma virtude, em que a imagem vale mais do que a coerência.
Desisti.
Desisti, porque em Marecos, enquanto dormitava na esplanada, aconteceu inesperadamente uma cena que me expulsou da cabeça a ideia de escrever sobre a hipocrisia e me mostrou ser muito mais atraente pensar na beleza da sinceridade e da empatia. Frente à esplanada parou um carro com quatro rapazes, dos seus trinta e tais. Um deles, ao subir a pequena escada de madeira, fixou o olhar na minha pessoa. Muito sorridente e simpático, cumprimentou-me com um aperto de mão dizendo, Como está senhor doutor? Eu respondi, como habitualmente acontece, Olá, a sua cara não me é estranha, mas não consigo ligar a cara à pessoa. Nem é preciso, respondeu, com um sorriso aberto, porque não nos conhecemos de lado nenhum. Eu vi-o meio a dormir, com ar de doutor, e pareceu-me tal e qual um quadro, uma pintura, o que me deixou curioso, impressionado e com a sensação de que foi muito bom encontrá-lo.
Fiquei meio perplexo, sorri, sem saber o que dizer. De seguida, trouxe mais uma mini que delicadamente colocou na minha mesa e foi sentar-se com os colegas. Quando acabei a cerveja, dirigi-me à senhora do bar, dizendo que gostaria de pagar uma rodada de finos aos quatro rapazes e fui ter com eles. O que me ofereceu a mini disse que se chamava Pedro e era músico. Ora nem mais. Então conhecem o Manel Cruz, o meu filho mais novo. O Manel? Quem é que não conhece o Manel?
E conversámos muito.
Mais uma vez, o Manel foi a minha tábua de salvação, a minha coroa de glória, o meu cartão dourado. A empatia e a sinceridade, as inimigas da hipocrisia, originam emoções e sentimentos que muitas vezes se expressam de forma espontânea, criando vivências e fortalecendo relações que tornam a sociedade mais humana e respeitosa. A empatia é saber olhar o outro com compreensão, respeito e gentileza. Pequenos gestos de atenção podem transformar o nosso dia e avivar e iluminar a relação que temos com os outros e com nós mesmos.
No centro de um esporádico encontro a que a sociedade actual nos desabituou, despedimo-nos com sensível e mútuo afecto. Foi um belíssimo fim de tarde, alheio a toda a espécie de hipocrisia, essa hipocrisia das minhas cogitações que foi verdadeiramente vencida por este feliz acaso
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