UM PRESIDENTE DIFERENTE – por Rachel Gutiérrez

Imagem1Provavelmente vai ressoar no mundo inteiro a entrevista do presidente do Uruguai, José (Pepe) Mujica à TV Bandeirantes, de São Paulo, que foi ao ar na madrugada de 31 de março. A excepcionalidade do personagem, considerado exótico e que não para de nos surpreender, levou o jornalista Ricardo Boechat a fazer, com respeitoso entusiasmo, a seguinte afirmação:

– “Poucos governantes do mundo podem ser considerados tão radicalmente humanistas como o senhor.” Humanismo de fato confirmado nas respostas simples, francas e sem hesitação do homem que dirige o pequenino país de pouco mais de 3 milhões de habitantes com o menor índice de analfabetismo do mundo.

O Uruguai tem sido, desde sempre, um país de vanguarda. Aprovou o divórcio em 1907; implementou a jornada de trabalho de 8 horas em 1925; concedeu o voto às mulheres em 1932; em 2007, permitiu a união gay logo legalizada pelo casamento gay; em 2009, promulgou a lei que castiga pais que inflijam punições físicas a seus filhos; também em 2009 autorizou a prática da eutanásia nos casos em que o doente terminal manifesta o desejo de realizá-la; em 2012, começou por descriminalizar o aborto logo depois legalizado. Possui o maior índice de liberdade de imprensa e o maior número de livros publicados na região.

Agora, presidido por Pepe Mujica, o pequeno Uruguai assombra o mundo com a discriminalização da maconha.

Sobre isso Dom Pepe diz: “o Ponto inicial é que tudo o que vínhamos fazendo não dava resultado.” E explica que “pior do que o consumo é o narcotráfico, que aumenta o grau de violência e corrupção que existe em várias esferas da sociedade.” E diz acatar o conselho de Engels: “se queres mudar não podes seguir fazendo o mesmo.” O presidente afirma que não é com repressão e punições violentas que vamos acabar com o problema das drogas. Isso vem sendo feito há décadas, sem resultado.

No entanto, Mujica não tem respostas para tudo nem muitas certezas. Só afirma que ao contrário do que podem ter pensado, não é a favor do consumo da maconha, nem do tabaco, nem do álcool. Quer, isso sim, controlá-lo, regularizá-lo, monitorá-lo. Visa, acima de tudo o adicto, o doente, o dependente da droga, que considera tão perigosa e nefasta quanto qualquer outra. E explica: “preferimos aceitar e conhecer a realidade, tirá-la da clandestinidade para poder trabalhar sobre o eventual indivíduo que está prestes a ficar doente. Tenho que atender medicalmente o adicto porque se deixo que ele continue na clandestinidade, talvez vá encontrar um trapo humano não mais recuperável.”

Quando lhe dizem que é considerado exótico, responde com simplicidade: “Estou consciente que sou um pouco exótico. Acredito que as repúblicas vieram como uma negação da monarquia divina, como negação do feudalismo. E vieram para confirmar que nós, homens, somos basicamente iguais”.

E eis a sua principal reflexão sobre o que e a quem deve representar o político: “Acho que os governos, por pressão da sociedade, se desviam e tendem a viver e criar uma aparelhagem que os rodeia, parecida com o modo de viver dos setores mais acomodados e não com a maioria da população que devem representar. Tenho claro que meu jeito de ser, meus hábitos são como os da maioria e não como os da minoria. A minoria são os poderosos, são os ricos. A maioria do meu povo é uma classe média humilde.” Diz ainda que se o político gosta da riqueza, que faça outra coisa: seja banqueiro, industrial, comerciante, porque o político deve se interessar é pela sorte dos outros, pela vida da polis. Deve pensar com o coração e esquecer o bolso. “As pessoas começam a detestar a política porque percebem que a política adota uma forma de vida que a divorcia do conjunto das pessoas.”

Quanto à discriminalização do aborto também é claro, afirmando que não é a favor do aborto, que ninguém é a favor do aborto, nem mesmo as mulheres que recorrem a ele num momento de desespero, mas o que deseja evitar são os abortos praticados na clandestinidade que, como se sabe, podem acabar em tragédias. Quer dar oportunidade às mulheres de voltar atrás em sua decisão, se for o caso, mas também quer lhes proporcionar um atendimento médico correto porque as que enfrentam os piores riscos são as mulheres mais pobres.

Agora, a última ousadia de Mujica é a tentativa de receber no Uruguai os presos de Guantânamo. Diz que não pode evitar a barbaridade dos Estados Unidos, que é um país grande e forte, mas também ache uma barbaridade que queiram falar de direitos humanos. “… essa gente não pode continuar jogada dentro de um calabouço, sem julgamento, sem defesa, anos e anos… ” E quando os jornalistas lhe lembram que ele passou o mesmo número de anos – 14! – na prisão, responde: “mas eu passei por uma causa, e tive juiz, aos de Guantânamo não podem acusá-los de nada.” E considerando o Uruguai um país de refugiados, acredita que poderá receber esses presos porque não quer ser nem servidor nem carcereiro do governo norte-americano.

O que mais encanta, portanto, em tudo o que Mujica diz nessa entrevista é a sua independência, o seu destemor e a sua flexibilidade.

Cito, para terminar, mais uma de suas corajosas e coerentes afirmações: “Na vida não temos de ser fanáticos. Temos de ter a audácia de inovar, mas quando a inovação está equivocada, deve-se renovar o caminho e ter a honra intelectual de reformulá-lo.”

Pepe Mujica é um democrata e um humanista, ou simplesmente um homem honesto e de bom senso como acreditamos que todos deveriam ser.

8 Comments

  1. * Presidentes como Pepe Mujica são únicos até incomodam -não lhe dão importância alguma .*

    *Aconteceu a indiferença numa reunião a alto nível nos STATES-Maria *

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