OS MEUS DOMINGOS – OS ESPECIALISTAS – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

I

Não serei eu que aconselhe a qualquer o estar doente, pois por mim nada sei de mais complicado para a vida e de pior para a saúde.

Mas, enfim, todos nós temos tantos amigos raquíticos, escrofulosos, diabéticos e dramaturgos, que mal pareceria andar sempre de parecer florido. Daríamos uma fraca ideia da forma por que praticámos a solidariedade e outras virtudes componentes da amizade, se à pergunta tradicional: – Então como vai isso? -, perpetuamente respondêssemos: – Eu bem. E tu? Continuas moribundo?

Acabaríamos por ser detestados por todos os nossos parentes, amigos e conhecidos e não faltaria quem dissesse:

– Não sei como Fulano se arranja para ter sempre saúde. É impossível que ali não ande pouca vergonha e grossa.

É prudente, pois, termos de quando em quando achaques. Mas não deixarei de recomendar certa modéstia. Entrar numa sala e dizer com ar de importância: – Participo a V. Ex.as que estou com lepra -, é evidentemente uma falta de gosto, que só compete a novos ricos. Quem tiver um pouco de critério e for na verdade um gentleman contentar-se-á com uma sarnasinha familiar e recreativa.

À laia de lord Brummell, o verdadeiro dandy é o que se veste sem que ninguém repare que está vestido. Da mesma forma, o verdadeiro doente é aquele que sofre evitando dar nas vistas.

Noutro dia, num chá das cinco, juntaram-se uma senhora hidrópica, um cavalheiro de idade com vómito negro e um rapaz ainda novo com elefancia. Pois eu, devo confessá-lo, achei aquilo excessivo  e fiz de conta que não os via. Fui tranquilamente conversar com um sujeito do Alentejo, que tem bastante de seu e que, afinal, se contenta com uma simples bronquite crónica.

Há também quem ande na vida provido de uma doença hereditária. Aqui para nós, não vejo no caso merecimento algum. Assim como aprecio um homem que veio nu a este mundo e à custa do seu trabalho adquiriu honestamente uma fortuna, assim admiro muito mais quem consegue apanhar com o próprio esforço uma pneumonia dupla do que quem herdou de seus pais uma cirrose no fígado e, ainda por cima, atira com ela à cara de cada um.

Quem não tenha grandes ambições e se contente com uma moléstia vulgar, destas de trazer na cama, se quer padecer tranquilamente e sem cuidados de maior, deverá evitar tratar-se, porque, se o estar doente pode até certo ponto acarretar preocupações a quem seja apreensivo, o meter-se nas mãos de médicos é origem segura e fonte perpétua dos mais variados desgostos.

Ainda assim, dentre os Esculápios os mais inofensivos são os de clínica geral. Como acodem a todas as doenças, confundem a miúde os tratamentos e não é a primeira nem a segunda vez que receitam por engano remédios esplêndidos para quem os toma.

Mas, se uma pessoa adoece e lhe sobrevém um médico especialista, então, em vez de gozar um achaque que o entretenha e o torne simpático, não só à sua família como ao seu guarda-portão, é mais que certo ter de encomendar dentro em pouco a qualquer agência funerária, um coche de gala para os Prazeres que esta vida tem ao cabo.

(continua)

 

13 de Maio de 1923

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