OS MEUS DOMINGOS – OS ESPECIALISTAS – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

II

 

O meu amigo Procópio Baeta, de que às vezes lhes tenho falado, começou, há quatro ou cinco anos, a sofrer de obesidade precoce e ostensiva. Adquirira esse padecimento comendo como uma dúzia de abades e bebendo como um cento de esponjas. Em resumo, pesava os seus duzentos quilos pelo menos e nem nos carros eléctricos consentiam em carretá-lo nesta Lisbia bem amada. Foi visitar um especialista, que, por um processo especial, tinha posto várias senhoras na espinha, o qual, depois de o auscultar, de o fazer cuspir três vezes para o ar e de ter feito a análise da saliva, declarou:

– Isso não é nada. Passa-lhe com exercícios físicos e principalmente andar a pé. O meu amigo todas as manhãs vai ao Dafundo em passo ginástico e volta pela estrada militar a pé coxinho. Ao cabo de dois meses está fino como uma agulha de bordar…

Efectivamente assim sucedeu. O Baeta, ao fim de seis semanas, estava transparente como uma vidraça. A família até lhe pôs brise-bises, para a vizinhança não ver o que se passava no íntimo do nosso amigo. Mas o passo ginástico e principalmente o pé-coxinho tinham-lhe arrasado os tornozelos, que trazia inchados como dois trambolhos. Aconselharam-lhe um especialista em tornozelos, que lhe mandou fazer o pino e, tendo examinado o local do sinistro, aplicou o seu remédio predilecto: banhos de lama sulfurosa aos pés.

– Em o meu caro senhor estando oito dias com os pés na lama, verá que isso passa. Mas, já sabe, o banho é sem galochas nem capa de borracha…

O Baeta aplicou o sistema e, na verdade, os tornozelos desincharam. Entretanto e com a humidade o doente apanhara uma laringite na faringe, que não só o fazia sofrer muito, como o impossibilitava de cantar a romanza da Manon nas festas para que era convidado.

Felizmente não faltam nesta capital os especialistas de garganta e aquele a quem se dirigiu o Baeta, depois de lhe tirar as impressões digitais e lhe medir o ângulo facial com um saca-rolhas, decidiu sujeitá-lo a um tratamento eléctrico. Após vários curto-circuitos e certa inflamação no comutador, o cliente pagou a conta e agradeceu penhorado pois a laringe estava uma beleza. Não parecia a mesma e várias pessoas, que a conheciam desde criança, não a cumprimentavam na rua, tão mudada a achavam.

Mal foi que o Baeta, como aquele Serafim da Cruz Mimoso da velha cançoneta, pertence a uma de nervos e a electricidade destrambelhara-lhe o sistema. Dava pulos na rua como o homem macaco de saudosa memória, a ponto de um dia saltar do passeio para dentro dum primeiro andar. Afinal fora a Providência que ali o levara, pois era nem mais nem menos que o consultório dum especialista de doenças nervosas, que conhecia aquele caso a fundo e o liquidava com simplicidade extrema por meio dum remédio aliás pouco conhecido: o brometo de potássio.

Baeta tomou brometo em comprimidos, em hóstias, em inalações, em irrigações, em supositórios, em banhos de tina, em vol-au-vent e em omolette. Ao fim de seis meses os acidentes nervosos tinham desaparecido. As enfermeiras levavam três horas a fazer-lhe cócegas no cotovelo com uma pena de pavão e Baeta nem pestanejava.

Assistiu nos nossos teatros à representação de trinta originais portugueses, e, tal como O Melro de Junqueiro, ficou impávido e sereno como outrora a Rosa Damasceno no Club do Calvário.

Reconheceu, no entanto, que, se o brometo o restituíra à normalidade dos seus nervos, não deixara de lhe dar cabo do aparelho digestivo, porque é bom saber-se que para fazer mal ao estômago, só há uma coisa pior que o brometo: a água de Vidago. Baeta não digeria. Baeta tinha azia e para ele todos os dias eram, portanto, aziagos.

Foi, pois, a conselho de vários dispépticos das suas relações, expor o seu caso ao mais célebre especialista de estômago. Radiografia, pirogravura no esófago e em resumo: um regime de feculentos. Nada de carnes, pouco vinho, água bórica e purés de feijão encarnado, de feijão verde, de feijão encarnado e verde, etc.

Remédio santo! O Baeta, com tanto feijão em puré, aumentou consideravelmente o seu repertório musical, limitado até então à já citada romanza da Manon, e ficou são como um pero, mas gordo como um nabo. Pudera! Se lhes parece! Três meses a farináceos! O camarada estava outra vez com os duzentos quilos que tinham sido a origem dos seus tratamentos.

Desesperado arrancava os cabelos das pernas e do nariz, não bulindo nos da cabeça a pedido de certa dama, que usava, nos momentos de exaltação sentimental, passar na trunfa de Baeta uma mão febril e alucinada.

 

13 de Maio de 1923

(continua)

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Para ler a parte I de Os Especialistas, de André Brun, publicada no domingo passado, 28 de Dezembro de 2014, em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/12/28/os-meus-domingos-os-especialistas-por-andre-brun/

 

 

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