OS MEUS DOMINGOS – ANIMAIS NOSSOS AMIGOS – por ANDRÉ BRUN

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(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

 

I

Falava-se de animais simpáticos e antipáticos e todos os presentes eram concordes em que o exemplar mais embirrento da fauna doméstica é a criada de servir. Enquanto lhe não compram, com umas meias de seda, um vestido de setecentos escudos e não a põem a dançar o fox-trott na casa de cear de um clube de jogo, a sopeira, como também lhe chamam Lineu, Buffon e outros naturalistas, é dentro duma casa o animal menos suportável.

Alguém fez notar que, felizmente, em cada habitante alfacinha que se presa não há só esse bicho – mamífero quase sempre – para nos arreliar. Há também vários outros animais simpáticos para nos distraírem. Temos as baratas, verdadeiro consolo deste tempo de vida cara, as pulgas que saltam nas damas, os gatos que papam os ratos, os ratos que roem o cebo, o cão que faz ão-ão, se dermos crédito a Lopes Vieira… Temos pelos meses quentes o grilo que canta com as asas, o que Caruso seria absolutamente incapaz de fazer, temos nos meses frios o canário, o tentilhão, o pintarroxo e a toutinegra que cantam como toda a gente e temos também, com qualquer temperatura, o papagaio que, esse, até fala. Em geral não sabe o que diz; mas quem sinta a sua consciência tranquila debaixo desse ponto de vista que lhe atire a primeira pedra.

Eu confessei a minha simpatia por tal pássaro, se bem que, por motivos especiais, prefira a todas as aves o elefante. Estimaria muito ter um em casa; mas essa espécie de proboscídeos são bastante incomodativos nos corredores estreitos e, aqui para nós, são muito trombudos. O papagaio, além de mais portátil e manejável, tem a vantagem de ser alegre e comunicativo.

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Abriu-se uma inscrição especial a propósito de papagaios e um dos presentes, que tinha estado no Brasil, contou a seguinte história:

– Um português fora há anos para o Rio de Janeiro sacudir a árvore das patacas e, ao partir, deixara a sua Maria entregue ao abade da paróquia. Mourejou por lá uns tempos e a fortuna começou a sorrir-lhe. Para se distrair e matar saudades da cachopa distante enquanto não regressava à sua terra natal, comprou um papagaio e tratou de lhe ensinar as gracinhas tradicionais.

O bichinho, dali a pouco, já dava o pé quando lhe pediam e bastava perguntar-lhe quem passava para ele responder logo com o maior desembaraço:

– É o rei que vai à caça…

Também falava por sua conta e, quando o patrão voltava para casa, o loiro, de cima do seu poleiro, estava quase sempre dizendo: – Papagaio real, vais para Portugal!…

O nosso homem, sorrindo, explicava ao pássaro:

– Vais, vais! Vamos ambos qualquer dia, se o negociozinho continuar a correr direito…

Como de facto corresse, uma tarde em que o papagaio repetia: – Papagaio real, vais para Portugal!…, o dono, radiante, anunciou-lhe:

– É já para a semana. Vou amanhã comprar a passagem.

Mas nisto chegou correio da Lusitânia. Um compadre anunciava ao pobre diabo que a sua Maria, olvidando os juramentos e promessas, se esquecera indignamente do ausente e se entregara com o abade a folias, devaneios e jogos icários que já andavam nas bocas de todo o mundo.

O dono do papagaio ficou para morrer e tomou desde logo uma resolução: não voltar mais à sua aldeia e, para não ouvir os comentários dos seus conterrâneos exilados no Rio de Janeiro, abalar para o Rio Grande do Sul, onde não conhecia ninguém.

O papagaio, que não tinha as mesmas razões para mudar de ideias, continuava na sua: – Papagaio real, vais para Portugal!…

– Não me parece! – dizia-lhe o dono. – Vamos, mas é para outro sítio que eu cá sei. Se eu lhe mostrasse a você, seu papagaio, uma carta que tive do meu compadre…

O papagaio mirava-o com o seu olhinho redondo de casca de cebola podre e insistia: – Papagaio real, vais para Portugal!…

O homem encolhia os ombros  e, para não ter que partir a cara do teimoso, fazia que não ouvia.

Chegou, enfim, o dia da partida e as malas já estavam feitas. Como se tivesse a pérfida intenção de arreliar o dono, o camarada papagaio levou toda essa manhã a anunciar a sua intenção de vir à terra da infiel Maria. E tantas vezes o disse e repetiu que, a certa altura, o marido infeliz foi-se a ele, pálido de furor e, ameaçando-o com um dedo terrível, declarou-lhe:

– Você fique sabendo para todos os efeitos que é um pássaro e, como tal, tem de ir para onde eu muito bem quiser. Ouviu?…

E, pegando-lhe furioso na corrente, pregou com ele no Rio Grande do Sul.

(continua)

 

29 de Abril de 1923

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