FRATERNIZAR – Sínodo sobre a família, parte 2 – QUE ESPERAR DAQUELES CLÉRIGOS CELIBATÁRIOS NO TOPO DOS PRIVILÉGIOS?

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Convém começar por lembrar que o Sínodo dos bispos é apenas consultivo, não deliberativo. Menos ainda do que qualquer parlamento de um país. Porque o bispo de Roma, papa, é monarca absoluto. Para cúmulo, infalível. A igreja católica é só ele. Pode dizer com verdade institucional, A igreja católica sou eu! Porque, no limite, é assim que são-funcionam as coisas. A igreja católica é o papa. O papa é a igreja católica. Os bispos também são, mas por delegação do papa. Por isso é ele quem os escolhe, um a um, e nomeia ou exonera. Não são as chamadas igrejas locais ou dioceses. Essas existem para financiar a Cúria romana, sem a qual as igrejas locais não existiriam. Os párocos também são, porque os respectivos bispos os escolhem e nomeiam ou exoneram. Não as paróquias. Estas só existem para financiar as cúrias diocesanas. Ninguém tenha ilusões. Era assim no império romano dos divinos Césares, é assim na igreja católica romana do divino papa. Tudo parece hoje mais diluído, mas só parece. O Sínodo pode apontar numa determinada direcção e o papa noutra. Se o fizer, contra o parecer da maioria do Sínodo, pode ser causa ou ocasião de um cisma. Mas é sempre a decisão do papa que vale.

Com esta teologia eclesiástica e este Código de Direito Canónico, que esperar daqueles clerigos celibatários no topo dos privilégios? Que sabem eles de família, se estão proibidos por lei eclesiástica de constituí-la, mesmo que as suas mentes-consciências, quando mais jovens, o tenham desejado? Todos sabemos que, se seguirem a sua mente-consciência e constituírem família, são de imediato afastados do exercício presbiteral-episcopal. Neste contexto canónico-eclesiástico, que vão os bispos decidir sobre família, se nem sequer reconhecem que hoje já não família? Há famílias. As mais variadas. O que muda tudo! Com enquadramento legal, aprovado nos respectivos países, ou à margem dele. São famílias de facto, as que verdadeiramente contam, porque as mais genuínas. Que pode a legalidade contra a realidade consumada? Pode reprimir, castigar, penalizar. Pode. Mas só mostra quanto é inimiga da vida, dos seres humanos concretos, mulheres, homens, com nome próprio, data de nascimento, estórias de vida muito reais.

Quem vê, via tvs, as notícias do Sínodo, parte 2, como já viu as do Sínodo, parte 1, há um ano, e repara nas imagens que os telejornais nos dão a visionar, não pode deixar de constatar que tipo de figurantes são aqueles bispos, aqueles cardeais, aquele papa. Atentemos, por exemplo, nas vestes com que sistematicamente se apresentam mascarados, não vestidos. Aqueles saiotes compridos, dos ombos aos pés, pretos onde sobressaem os vermelhos, revelam muito mau gosto. Com destaque para aquelas faxas vermelhas e largas à volta da cintura. O que anda na cabeça destes figurantes, com aspecto de homem, para cúmulo, também ela coberta por um pequeno toucado redondo vermelho? Mas que querem? Vêem-se ao espelho e acham-se majestáticos, solenes, senhores, príncipes, chefes de dioceses territoriais que quase só existem na imaginação deles, porque a esmagdora das famílias que lá residem passam muito bem sem o ministério pastoral deles! Não têm sequer a lucidez para verem que são ridículos, fora deste tempo, uma espécie em vias de extinção que desperta alguma curiosidade pelo esoterismo, nada de substantivo, de decisivo para o dia a dia das populações e dos povos? Pelos vistos, não!

São menos de três centenas deles com direito a voto. Cada qual mais importante do que o outro. Dizem-se portadores da plenitude do sacerdócio e, com isso, acham que são (semi)divinos, não humanos. Mas, quando, à noite, depois de terminado o teatro em cada um dos dias do Sínodo, onde estão sentados-ombro-a-ombro, a ouvir intervenções sem o mínimo interesse para as suas mentes-consciências, finalmente, se vêem sozinhos na sua habitação, despem-se daqueles trajes medievais-imperiais de mau gosto, e entram no duche tais quais vieram ao mundo, não podem deixar de dar-se conta dos corpos deformados, das rugas, das barrigas, da velhice que os veste, das dificukldades em movimentar-se. Deveriam ter a lucidez e a audácia de pôrem um ponto final neste teatro, nesta encenação diária institucional e assumirem-se como seres humanos bispos, simplesmente. Deveriam. Mas, que fariam a seguir, na condição de homens como os demais?

Alguns deles ainda devem lembrar-se daquele administrador de que fala o Evangelho, que soube que ia ser despedido pelo patrão e, perturbado, pergunta-se, Que hei-de fazer agora? E logo adianta, Trabalhar, não posso; mendigar, tenho vergonha. O mesmo se passa com aqueles clérigos celibatários no topo dos privilégios. E, na impossibilidade de recorrerem à desonestidade do administrador infiel referido pelo Evangelho, lá voltam, no dia seguinte, a mascarar-se com aquelas vestes que os capam das suas capacidades humanas. E assim se arrastam pela vida, até aos 75 anos, idade em que, por força de outra lei canónica, têm de requerer ao papa, seu chefe e chefe de estado do Vaticano, a passagem ao estatuto de bispo emérito, uma espécie de certidão de óbito antecipada. Porque, aí chegados, ficam sem os holofotes, sem nenhum poder episcopal, num desconforto com sabor a abandono eclesiástico.

São tantos e tais os problemas com que hoje se batem as sociedades nas múltiplas nações do planeta, nomeadamente, nas famílias, nos múltiplos modelos em que elas subsistem, com divócios, separações, segundas e terceiras uniões, tendências sexuais as mais diversas, como, sumariamente, enuncia a sigla LGBT, com natalidade quase nenhuma, ou natalidade em excesso, que é mais do que legítimo perguntar, Que se pode esperar de bom dos bispos católicos reunidos em Sínodo, parte 2, com o papa manifestamente cansado, abatido, triste, por ver os seus escolhidos ou escolhidos por antecessores seus, completamente aos papéis e agarrados a doutrinas moralistas que já nem para museus de ideias servem?

É imperioso que as sociedades e as famílias deste início do terceiro milénio, em lugar de valorizarem as leis da igreja católica e das igrejas protestantes, decidam valorizar a sua própria consciência e a consciência de cada um dos seus membros. Da igreja católica e das protestantes, não há nada a esperar de bom, de humano. Primeiro, teriam de ser humanas. Não são. Têm-se como divinas, uma casta superior, quando são mera encenação, vidas-faz-de-conta, estéreis, que urge pormos na beira do prato, como comida estragada, indigesta.

Os grandes media deveriam fazer-se eco deste Evangelho que aqui se escreve. Não se fazem. Pelo contrário. Vivem do espectáculo, do esotérico, do medieval a entrar terceiro milénio adiante. São inimigos do humano e amigos do Dinheiro, o único senhor e deus que cultuam. Outros tantos agentes de corrupção das sociedades que temos de expulsar das nossas vidas. Ficaremos, assim, com tempo bastante para nos encontrarmos uns com os outros, nos escutarmos, amarmos, comermos juntos, partilharmos experiências e estórias de vida, as nossas, poemas, afectos, cantos, danças. Nascemos de novo, de outro Sopro, a Ruah de Jesus, o ser humano por antenomásia, cujo Projecto político se materializa em múltiplas e coloridas sociedades-comunidades de iguais, animadas de dentro para fora, na simplicidade das aves do céu e na beleza inultrapassável dos lírios do campo. É por aqui o caminho das famílias, da humanidade. Felizes aquelas, aqueles que o fazem seu. Cada dia da sua vida.

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