Um filme que eu vi, Rocco i suoi fratelli, de Luchino Visconti – por João Machado

Sexta-feira passada, fui ao cinema, à sessão habitual das sextas-feiras, na sede do meu partido, o Bloco de Esquerda, aqui em Vila Franca de Xira. Fui ver outro filme do ciclo de Luchino Visconti (1906 – 1976), Rocco i suoi fratelli, intitulado Rocco e seus irmãos em Portugal. É um filme de 1960. A crítica aponta-o como um regresso do realizador ao neo-realismo. Digo um regresso, e não o regresso, porque, do pouco que conheço da sua obra, vem-me a impressão que Visconti escolhia o estilo a imprimir ao filme conforme o argumento. E que procurava sempre enquadrar os fortes dramas individuais num pano de fundo devidamente caracterizado, política, social e culturalmente. Nem mesmo em Il Gattopardo, apresentado apenas três depois de Rocco i suoi fratelli, Visconti deixa de o fazer. Os seus filmes são minuciosamente preparados e estudados, e assentes em argumentos que incluem dramas individuais muito fortes, enquadrados num ambiente histórico bem caracterizado. Procurarei voltar a este ponto no futuro, com um melhor conhecimento da obra. Para já acho que Visconti nunca se afastou do neo-realismo. E neste filme ele debruça-se directamente sobre os problemas das classes mais desfavorecidas, ao contrário de outros filmes.

Rocco i suoi fratelli conta-nos a história de uma família do Sul de Itália que vai para Milão para encontrar trabalho. Vêm a matriarca da família Parondi (um belo trabalho da actriz grega Katina Paxinou) mais quatro filhos. O mais velho dos irmãos já se encontra na grande cidade. A seguir é a análise dos diferentes caminhos que seguem os irmãos. Aqui, na minha opinião, Visconti carrega talvez um tanto excessivamente no conflito entre os irmãos Simone e Rocco, por causa de Nádia, uma prostituta que se envolve com Simone, primeiro, e depois com Rocco. Simone entra em queda livre, enquanto que Rocco triunfa no boxe. À volta de um violento drama, Visconti procura mostrar que, se um indivíduo mal encaminhado como Simone é um problema para a família e para todos em geral, também Rocco, que segue os melhores princípios, e dá tudo pela família, também não consegue superar os problemas criados pelo irmão desencaminhado. Será Ciro, o irmão operário, que acaba por mostrar o caminho. Para além de outros aspectos, a intensidade do conflito entre Simone, Nádia e Rocco, esconde um tanto a restante problemática. Hei de rever o filme, para ver se confirmo esta minha impressão.

Os actores vão soberbamente. Alain Delon faz de Rocco, Renato Salvatori de Simone, e Annie Girardot de Nádia. Estão muito bem. Talvez Salvatori e Girardot ainda melhor que Delon. As cenas, os ambientes, tudo muito bem preparado. A música de Nino Rota vai muito bem com o conjunto. Vão ver que o filme é muito bom. Não será perfeito, mas vale a pena. E filmes perfeitos, não há, pois não? É como na vida.

3 Comments

  1. O grande cinema italiano tem, ainda hoje, as suas raízes no “seu” Neo-Realismo (em minha opinião…). Mas as correntes atísticas nunca se confundem com (nem absorvem completamente) as individualidades que as integram ou que por elas são influenciadas.Outra questão, que é sobretudo de gosto, será o facto de, entre muitos outros cineastas que admiro, Visconti ser precisamente o meu preferido, “o maior entre os grandes”: pelo rigor, pelo requinte no manuseamento das diversas linguagens que se fundem inextricavelmente num filme, desde a gramática das imagens em movimento à do discurso oral (os diálogos são, sempre, fabulosos), à da música e outros tipos de sons? Não estou seguro das razões, mas sei que cada filme do Visconti me surge, no seu todo, como uma maravilha!Há um filme que adoro (independentemente de outros que me deslumbram): “Ritratto di famiglia in un interno” (creio ser este o nome?) ou “Conversation Piece” (da versão inglesa? – ou talvez usado também em Itália, ou mesmo como denominação original, já que descreve um tipo de pintura inglesa de interior, muito característica, e, simultaneamente, se aplica que nem uma luva ao que o filme “é”, numa ambiguidade cheia de significado). E o mais curioso é que, por pouco, não via o filme, quando da estreia em Portugal, já que na altura andava muito atarefado e o título em português – “Violência e Paixão” -, completamente imbecil, não me chamou a atenção. Valeu-me o convite de uma colega minha, mais atenta, no final de um turno matutino e com uma rara tarde livre pela frente…

  2. Obrigado, Paulo, pelo teu comentário. Eu também acho o Visconti notável. O “Ritratto di famiglia …” é realmente notável (e para mim, melhor que o “Rocco …). O que me parece é que o argumento do “Rocco …” perdeu-se um bocado à volta do drama dos dois irmãos à roda da mesma mulher. E que esse drama não seria o objectivo fundamental do filme. Terá havido um desvio. Mas isso é apenas a minha opinião. Espero conseguir ver novamente o filme.

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