UM CAFÉ NA INTERNET – Esta Obscuridade Salubre, por Ana Hatherly

Um Café na Internet

 

 (1929 – )

 

Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão quieta

sentada no jardim e até com óculos

não venhas peço-te

não venhas melindroso e sorrindo

com a cabeça inclinada como um particípio

não venhas

Eu estava já me aproximando

quase tocava a recorrência das coisas

nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada

pequena pedra saudável

eu estava tão quieta sentada no jardim

Respirava

sentia as veias ligeiramente activas

mas tão ligeiramente

tudo corria fundo em sua sumidade

meus braços tinham apenas o seu peso

sem outras asas

Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre

de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha

botânica

a minha indústria difícil

o fim que a alma lograda obtém dos corpos

Corro agora por minha alucinação dirigível

minhas tarefas são histriónicas

Eu estava ali tão quieta

estava até com óculos

e tu inclinavas-te como um simulacro

Intui peço-te

esta obscuridade salubre

esta consternação despenhada

tropeçando pela alma recorrente silva

In Eros Frenético, 1968. Fui buscar este poema a Poesia 1958 – 1978, Círculo de Poesia, Moraes Editores, com prefácio de Lúcia Helena da Silva Pereira. A Ana Hatherly, os nossos mais respeitosos cumprimentos. E os nossos agradecimentos, extensivos à Editora e a Lúcia Helena Pereira da Silva.

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