Um Café na Internet
São três e um quarto quando chegamos e já uns vinte caminhantes, no mínimo, se encontram espalhados pela sombra ou pela esplanada – perto do albergue. Os suecos refugiam-se na frescura do café, eu sento-me na beira do passeio a escrever, o que me permite observar o ambiente, assistir à chegada de outros caminhantes, ouvir conversas que se cruzam…
Os dois espanhóis juntaram-se na esplanada a um grupo de raparigas maioritariamente alemãs. Oiço o da selecção questionar: Quantos anos tens? Elas replicam com uma risada. Ele deve andar pelos quarenta, não entra no molde da beleza hollywoodiana e, ainda por cima, exibe-se com uma indumentária aqui pouco cotada. Preparo-me para seguir, tanto quanto possível, o progresso da situação.
O albergue abre às cinco em ponto. Forma-se a bicha para a inscrição, segue-se a subida com a alberguista, a apresentação do espaço: aqui a Internet, além a cozinha, as casas de banho femininas, as casas de banho masculinas, a lavandaria, o jardim…
Os suecos dormem ao meu lado direito e, a pouco e pouco, vão subindo alemães de todas as idades – parece-me – porém, acabo de desarrumar a mochila, oiço uma das raparigas:
– Puseram-me no dormitório dos velhos! (Não me ofendo: a rapariga que fala é velha aos olhos de outros.)
Tomo duche. Parece – mais uma vez – que despejei uma lata de tinta branca por cima de toda a camisola: o sal da transpiração. Enquanto lavo a roupa, converso com os espanhóis. Chamo “Cid Campeador” ao de Burgos, que também leu “El Cantar de Mio Cid”. O da selecção é de Cadiz. Um acidente levou-lhe metade da mão e do braço, seguiram-se seis anos em cirurgias, transplantes e reeducação, mas agora mexe a mão e alguns dedos. Vive com a reforma de invalidez e, para os extras, trabalha três meses por ano como monitor de natação.
Subo à cozinha: cozo meio pacote de massa, que rego com molho de tomate (comprados antes de chegar ao albergue), devoro tudo à frente de um casal de alemães que por aqui anda a depenicar tomate-cereja. Falam-me da camioneta para Valença.
– Vocês não caminham?
Tentam corrigir o lapso. Caminham sim, claro, nunca se sabe, uma queda, uma entorse, convém informarem-se. Esta gente tem dinheiro, nem sequer caminha – e aproveita-se de albergues destinados aos caminhantes. Inquirem onde vou dormir amanhã. Em Valença. A alemã ri-se.
– Não me espanta que comas outra pratada de massa!
Ainda converso com a alberguista, antes de passear pela cidade, por fim envio uma mensagem à família, outra ao meu camarada Sérgio. Encontro-me feliz e no albergue de Ponte de Lima.
Passa das onze horas quando me deito. A cidade é bonita, o albergue aprazível; em Ponte de Lima não consigo deitar-me cedo. Tendo adormecer sem tampões auriculares mas desisto e, mesmo com eles, sou acordada às quatro e meia pelo maluquinho que à minha esquerda dormiu, o qual arruma as bagagens às escuras e, antes das cinco, já desandou. (Não obstante a diurna fogueira, acho uma estupidez, nesta paisagem tão bonita, caminhar durante a noite.)

