GIRO DO HORIZONTE – A IMPUNIDADE DE ISRAEL – 3 – por PEDRO DE PEZARAT CORREIA

 

 

          João Machado põe-me uma questão, em comentário ao meu GDH de 19 Mar, que não se compadece com uma reflexão em meia dúzia de linhas e, por isso, é o tema do GDH desta semana.

          Em minha opinião JM mexe no essencial da questão, o papel de Israel no MO que é, há dezenas de anos, desde que o petróleo se tornou a fonte de energia determinante para o mundo desenvolvido e das grandes potências dirigentes do sistema, a região mundial de maior e mais persistente conflitualidade. Carlos Loures já publicou neste espaço alguns textos muito importantes sobre a criação do Estado de Israel em que mostra como o seu aparecimento, primeiro na sequência da I GM e do desmantelamento do império otomano que conferiu à GB um papel decisivo na região, depois na sequência da II GM e da dinâmica que prenunciava o fim dos impérios coloniais francês e britânico no mundo árabe, se inscreveu na estratégia de assegurar uma posição num novo quadro político que ameaçava a supremacia ocidental.

          No mosaico geográfico-político da guerra fria, um mundo bipolar dividido em dois blocos e um terceiro mundo pretensamente não alinhado, mas palco da disputa das duas superpotências na tentativa de assegurar zonas de influência, definiram-se algumas zonas que reuniam condições geográficas, políticas, humanas, económicas, em síntese, geoestratégicas e se tornaram particularmente sensíveis. Analistas dos mais diversos quadrantes internacionais chamaram-lhes cinturas fragmentadas, fendas geoestratégias, zonas charneiras, zonas intermediárias, zonas de fragmentação, enfim um manancial de designações para significar o óbvio, zonas em que se chocavam interesses dos blocos em confronto e, por isso, potencialmente de conflito endémico. Assumiram particular relevo o Médio Oriente, o Sudeste Asiático e, mais tarde, a África Subsahariana.

      No MO Israel era uma lança do ocidente que era preciso preservar a todo o custo, não porque dispusesse dos recursos que contribuíam para fazer daquela área uma zona em disputa, mas porque assegurava ao ocidente uma presença efectiva na região. Inicialmente a importância de Israel era diluída no meio de outros parceiros igualmente, ou, até, mais importantes, a Turquia e a Pérsia. Porém, com o fim da guerra fria e o desaparecimento da URSS e do Pacto de Varsóvia, o MO ganhou importância acrescida porque deixou de ser uma mera zona charneira, tampão, de confronto entre os dois blocos e passou a ser uma zona com conflitos endógenos, tornada objectivo na cena mundial. A Turquia perde importância como parceiro na OTAN e adquire autonomia com o estatuto de potência regional e o Irão, substituindo-se à Pérsia, passa de fiel alinhado dos EUA a seu principal inimigo. Permanece Israel como grande aliado, cuja importância aumenta e se torna necessário reforçar.

       Este é o quadro actual e, para a realpolitik dos EUA, pouco importa se o reforço de Israel passa pelo verdadeiro martírio dos palestinianos, como pouco importava quando a manutenção do apartheid na África do Sul passava pela tragédia nos guetos africanos, quando a manutenção do regime na Indonésia passava pelo genocídio do povo timorense ou a “estabilidade” na América do Sul passava pelo apoio a Pinochet.

          Evidentemente que a intrigante força de Israel, que até parece afastar Washington de outros potenciais aliados que lhe poderiam ser muito mais favoráveis na região, como a Turquia, vem de outro factor, o loby judaico nos EUA. E é isto que levanta a questão: quem determina e quem é peão na estratégia judaico-americana no MO? São os EUA que se vêm forçados a cumprir uma estratégia definida em Tel-Aviv, ou é Israel que executa uma estratégia traçada em Washington?

          Esta situação não será eterna. Com o mundo a tornar-se cada vez menos centrado no ocidente, com o século asiático que será o século XXI como a generalidade dos analistas preconiza, a política autista de um Israel sionista não tem futuro. São mesmo cada vez mais analistas israelitas que avisam. Que tragédias até que se imponha o bom senso na busca de soluções viáveis?

26 de Março 2012

***

 

1 comentário:

De Carlos Loures a 26 de Março de 2012 às 22:31

A juntar ao que diz, várias notícias de hoje, compõem um puzzle preocupante – Em Seul, Barack Obama, fez um ultimato ao Irão – escasseia o tempo para resolver diplomaticamente a questão do programa nuclear iraniano (o que deixa antever que a solução será militar). Disse também que vai continuar a lutar por «um mundo sem armas nucleares». O que seria bom se essa luta não implicasse o perigo de um conflito alargado. O Governo de Israel cortou relações com o Conselho de Direitos Humanos da ONU, como represália à abertura de um inquérito internacional sobre a construção de novos colonatos judaicos na Cisjordânia. Por outro lado, um inquérito do jornal Haaretz revela que 65 dos israelitas são da opinião de que uma operação militar contra o Irão, poderá solucionar o problema e esconjurar a ameaça de um ataque da República islâmica. Parece estar a compor-se um cenário semelhante ao que antecedeu a invasão do Iraque. Não lhe parece?

 

 

 

 

Quarta-feira, 28 de Março de 2012

DIÁRIO DE BORDO, 28 de Março de 2012

 

A bordo da nossa Argos, a preocupação com a política nacional tem tido, muito justamente, lugar de destaque. Mas não nos podemos alhear do que se passa lá fora. Há muitos motivos para andar de mãos na cabeça. Ora vejam um:

Decorreu em Seul uma cimeira sobre segurança nuclear. E tivemos mais um caso de conversas captadas por microfones supostamente (mas não realmente) desligados.  O ainda presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, abordou Obama sobre a defesa antimíssil que os EUA pretendem instalar na Europa Oriental, e que levanta muitas objecções a Moscovo. O presidente norte-americano terá procurado tranquilizar o seu interlocutor e proferiu a frase seguinte:

– “After my election, I’ll have more flexibility”. “Depois das eleições, serei mais flexível”.

Este episódio, se não fosse tão grave, quase nos faria rir. Ah, estes microfones só desligados na aparência… ainda fazem concorrência ao Wikileaks. Mas o facto é que estamos perante um problema gravíssimo. A tensão na Europa Oriental é um factor de desequilíbrio no continente e uma preocupação adicional para a UE, cuja orientação política dominante tende para um conservadorismo pouco atreito a aproximações com a Rússia ou com a Turquia, e mais virado a uma aproximação calculista aos EUA. O nacionalismo dominante nos países do leste europeu, conjugado com as recordações do peso da ex-URSS nas respectivas vidas, agrava a situação. Historicamente, o leste europeu tem sido palco de grandes conflitos. O projectado escudo antimíssil traz esta questão novamente à tona. Se, por um lado, a Rússia parece ter menos capacidade militar do que a antiga URSS, os seus recursos naturais são uma fonte de grande interesse para os centros financeiros, os quais, como se sabe, têm um peso considerável na política internacional. Um dos pilares da política estrangeira dos EUA é a manutenção da sua superioridade militar. E o tradicional complexo militar-industrial parece manter todo o seu peso.

Sintoma claro da complexidade do assunto, são as declarações do candidato a candidato republicano Mitt Romney às próximas eleições presidenciais norte-americanas. A respeito das declarações (se assim se podem chamar) de Obama considera-as inaceitáveis, e classifica a Rússia como “o nosso inimigo geopolítico número um” (number one geopolitical foe).  Ah, isto promete…

Eis um assunto já antigo, e que não podemos perder de vista. Pedimos ao argonauta Pezarat Correia que nos dê a sua visão, no seu Giro do Horizonte. E esperamos, claro, que os actores principais (e os outros também) ganhem juízo

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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