GIRO DO HORIZONTE – A IMPUNIDADE DE ISRAEL – 2 – por PEDRO DE PEZARAT CORREIA

 

            O meu GDH da semana passada, “A IMPUNIDADE DE ISRAEL”, suscitou uma interessante troca de opiniões entre João Machado (JM) e Augusta Clara (AC), que levanta a questão magna do Médio Oriente, isto é, a solução para a Palestina, “questão muito complexa” (JM), “um nó que não sei como alguma vez se desatará” (AC).

               Permito-me, sobre isto, acrescentar breves considerações.

              A questão palestiniana encontra-se num impasse, com as tentativas para negociações pacíficas bloqueadas, sem qualquer avanço e, pelo contrário apenas registando retrocesso em todos as grandes questões que configuram o conflito: refugiados, colonatos, Jerusalém, água, territórios ocupados, reconhecimento mútuo. Os sucessivos fracassos das mais variadas tentativas do processo de paz, a manifesta incompatibilidade entre as comunidades em confronto, o recorrente e sistemático recurso às armas, justificam o cepticismo generalizado.

              Creio que cabe, aqui, o recurso à evocação de um outro caso, que pode mesmo funcionar como um estudo de caso, que apresenta muitos paralelismos com o palestiniano e onde, da consideração de que não havia solução viável, se passou à esperança e à concretização de uma solução inovadora. Apenas foi necessária a clarividência e a coragem para romper com uma situação de facto.

      Refiro-me à África do Sul.

           Vivia-se na África do Sul, até aos finais do século passado, uma situação de apartheid racial, modelo encontrado pela minoria branca para perpetuar o seu domínio político e económico, discriminando a maioria negra, perante a condenação formal, palavrosa, envergonhada mas inconsequente, da chamada comunidade internacional. O apartheid era um sistema criminoso, assente na repressão interna e na agressão aos vizinhos externos, na segregação da maioria negra para guetos e bantustões, na negação dos seus direitos de residência, circulação e trabalho, na violação dos seus mais elementares direitos cívicos, na limitação do seu acesso aos recursos naturais, terras, matérias-primas, riquezas nacionais. Perante o imparável avanço da descolonização e das independências dos países vizinhos que, obviamente, apoiavam as reivindicações da maioria negra, o governo racista da África do Sul lançou o que chamou “Estratégia Nacional Total”, que incluía o sistemático lançamento de acções militares em Angola, Moçambique e Zimbabwe, países que apoiavam o ANC na África do Sul e a SWAPO na Namíbia. E, como argumento último para assegurar a absoluta hegemonia militar regional, muniu-se da arma nuclear.

             O argumento do regime do apartheid, que contava com a condescendência e compreensão cúmplices das potências ocidentais, era elementar: com o poder nas mãos da maioria negra os brancos seriam rápida e inexoravelmente lançados ao mar. A tolerância ocidental também assentava numa argumentação que, para além de elementar, era viciada: afinal o regime do apartheid era a única democracia em África. Na realidade era uma “democracia” no seio da minoria branca, mas uma cruel e inumana ditadura para a maioria não-branca. Aliás como a generalidade dos regimes coloniais europeus (até nisto a ditadura salazarista se distinguiu pela negativa), democracias nas metrópoles mas ferozes ditaduras nas colónias.

             Afinal foi possível desbloquear o impasse na África do Sul, transferir pacificamente o poder para a maioria negra sem expulsão dos brancos, conviver com os estados vizinhos, desfazer-se da arma nuclear, implantar uma democracia representativa, recusar sistemas de discriminação étnica ou religiosa, procurar soluções para as iníquas distorções sociais. Quando na televisão comecei a ver, na África do Sul, cada vez mais jovens brancos misturados com multidões negras em enormes manifestações contra o apartheid, apercebi-me que chegara a hora da mudança.

            Apliquem-se todos estes items aos obstáculos e pretextos que justificam a impunidade de Israel no Médio Oriente, o apartheid judaico, eternizar os refugiados como garantia do “regime democrático”, as agressões aos vizinhos, o domínio dos recursos, o monopólio nuclear e compreender-se-á melhor a política de Israel.

         O exemplo da África do Sul mostra que são possíveis soluções cosmopolitas e inclusivas. É urgente que surja um Mandela palestiniano e, até, um De Klerk israelita.

19 de Março 2012

 

 

***

 

1 comentário:

De Carlos Loures a 19 de Março de 2012 às 23:45

Meu caríssimo Amigo, estou muito de acordo com o que diz – sem dúvida que devemos ter esperança em que, tal como aconteceu na África do Sul, a inteligência prevaleça. O que não sei é se, quer judeus, quer palestinianos, aceitariam líderes equivalentes a De Klerk e a Mandela sem que algo mude na política internacional. O apoio dado pelos Estados Unidos e pela França a Israel, dá aos sionistas uma sensação de invencibilidade que não favorece a opção por uma paz negociada. No entanto, devemos ter alguma esperança na medida em que é precisamente do lado judaico que chegam condenações consistentes à bárbara política de agressão que os sucessivos governos israelitas assumem. Lembro a obra de Hannah Arendt e, mais recentemente, a professora Idith Zertal . Esta última, no seu livro «A Nação e a Morte», não hesita em qualificar como maligna a ocupação dos territórios palestinianos: «Governar outro povo de uma maneira tão brutal é devastador também para nós». E chama a atenção para a recorrente invocação do Holocausto para justificar tudo, inclusive para o facto, de usarem sobre outros uma violência brutal, assumindo apesar disso o papel de eternas vítimas. Os israelitas, na boa tradição hebraica, criaram uma conta-corrente – os seis milhões de mortos conferem-lhes, segundo entendem, o direito de levar a cabo um genocídio sobre o povo palestiniano, equivalente ao que os nazis praticaram.. Zertal avisa: que usar e abusar da memória para, de forma descontextualizada, para praticar actos condenáveis é a melhor forma de dar razão aos que querem ver destruído o Estado de Israel. Oxalá, repito, a inteligência prevaleça.

 

Terça-feira, 20 de Março de 2012

Comentário a um comentário sobre A IMPUNIDADE DE ISRAEL – por Pedro de Pezarat Correia

É um excelente contributo o comentário de Carlos Loures para a compreensão do meu último GDH. São várias as autoras e os autores judaicos que me têm ajudado a formar a minha interpretação do drama palestiniano. A situação está bloqueada por posições inconciliáveis, mas há soluções que não passam pela soma zero, pela vitória radical de uma das duas soluções que se excluem mutuamente E muito menos através de interferências externas viciadas à partida.

 

Também não é uma questão de esperança versus desespero. É uma questão de prospectiva: ajudar a criar condições hoje, para o que parece ser inevitável vir a acontecer no futuro. Da mesma forma que a permanência dos brancos na África do Sul era viável mas não com um Estado de apartheid, também a permanência dos judeus na Palestina é viável mas não com um Estado sionista

 

 

 

1 comentário:

De João Machado a 21 de Março de 2012 às 03:00

Neste comentário refiro esta intervenção do Pezarat Correia e anterior, assim como o comentário do Carlos Loures. Vou tentar introduzir alguns pontos nesta conversa:
1 – A situação geográfica de Israel é muito diversa da da África do Sul. O ficar no Médio Oriente será um dos factores do apoio norte-americano.

2 – A simpatia, ao nível internacional, de que Israel ainda goza está longe de estar esgotada, ao contrário da África do Sul, que ficou completamente isolada no plano político. Recordo que nas votações na ONU apenas tinha Portugal a seu lado. É verdade que as potências ocidentais, veladamente apoiavam de certo modo o regime. Contudo, não será exagero dizer que o isolamento político da África do Sul era maior que o de Israel hoje em dia. Também se deve ter em conta que estamos numa época histórica diferente.

3 Em sentido contrário, deve-se reconhecer que em várias comunidades judaicas levantam-se vozes contra o esmagamento dos palestinianos, que está a ser levado a efeito pelo estado de Israel. Marwan Barghouti, que alguns designam como o Mandela palestiniano, está preso, salvo erro, desde 2002, e Israel recusa libertá-lo.

 

 

Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Pezarat Correia pediu-nos para publicar o seguinte, em resposta a um comentário à nota publicada ontem, às 19 horas.

 

João Machado (JM) tem razão na generalidade do seu comentário: são diferentes os quadros geográficos e os momentos históricos. Mas os paralelismos são reais.

Acrescento algumas considerações:

– nada indicia que uma mudança do panorama na Palestina no sentido que apontei signifique o fim da presença dos EUA no M.O.;

– o isolamento da Africa do Sul do apartheid não impediu, como JM reconhece, apoios nem sempre muito velados do ocidente; nos princípios da década de 70 Kissinger ainda afirmava que a hegemonia branca na África Austral estava para durar e isso era vantajoso para o ocidente; e na fase mais aguda da guerra civil em Angola, na década de 80, Reagan alinhava com a África do Sul no apoio à UNITA, o que era uma forma de apoiar o apartheid;

– por fim, se é verdade que Israel está menos isolado no ocidente, também o é que o mundo está cada vez menos centrado no ocidente

 

 

1 comentário:

De João Machado a 25 de Março de 2012 às 00:34

Pezarat Correia tem razão quando afirma que uma eventual mudança no panorama da Palestina não significaria o fim da presença dos EUA no MO. Mas precisamente a liberdade de acção quase total dada a Israel resulta no esmagamento gradual dos palestinianos, e não são as conversações de paz que têm ocorrido, destinadas sobretudo à opinião pública mundial, que vão alterar significativamente o quadro da situação.

Os EUA procuram marcar presença por todo o mundo, e no MO, Israel é um grande aliado. A hostilização de países que procuram levantar cabeça, como é o caso do Irão, faz também parte dessa estratégia. Países como a Rússia, a China e mesmo a Índia sabem que também são visados, embora não abertamente. Por isso ponho a dúvida: Israel é sobretudo um peão de uma estratégia, ou terá outro papel? Mesmo o futuro dos palestinianos poderá depender dessa estratégia.

Israel quererá sempre aparecer como um aliado indispensável, para ter mais liberdade de acção.

É terrível a situação dos povos sujeitos a estes jogos de guerra e de poder. Pezarat Correia, que acha desta análise? Vê hipótese de alteração?

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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