Passa hoje mais um aniversário sobre o golpe contra-revolucionário do Thermidor. No dia 9 do novo calendário (27 de Julho), Robespierre era guilhotinado e no dia 10 (28 de Julho), chegava a vez de Saint-Just. Na prática, a Revolução Francesa terminava e anunciava-se o advento do Império. A luz da esperança numa sociedade nova apagava-se e regressava, com outros actores, o mundo velho. Robespierre, o Incorruptível, ou o Tirano, consoante as perspectivas, e Saint-Just, o arcanjo da Revolução, eram silenciados. Haveria ainda uma contra-ofensiva dos sans-culottes, em Abril e Maio de 1795, mas em Setembro desencadear-se-ia uma nova ofensiva monárquica e em Setembro de 1797 os últimos montanheses seriam guilhotinados. A Revolução terminara.
Em 1870 seria a Comuna a ser esmagada violentamente. A Revolução Soviética de 1917 albergou no seu interior todas as fases da Revolução Francesa – da Tomada da Bastilha ao Thermidor. Ambas as revoluções criaram um sistema de mitos que pairou sobre as nossas revoluções – na de 5 de Outubro de 1910 reinou a simbologia de 1789 e na de 25 de Abril de 1974 pairou a imagética de 1917. Apenas símbolos e imagens.
Fixemo-nos num dia do «Verão quente» – há 37 anos, em 28 de Julho, uma segunda-feira, desconvocava-se a greve do metro de Lisboa, mas havia manifestações por todo o País, os comunicados brotavam em catadupa… grande actividade dos Conselhos Revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros, que convocavam o 2.º Congresso Nacional para 2 e 3 de Agosto, no Instituto Superior Técnico, «a fim de analisar a situação política, económica e militar, as formas de organização da Classe Operária e as tarefas imediatas para instaurar a Ditadura do Proletariado». Arnaldo de Matos, secretário-geral do MRPP, afirmava que «o grande capital usa a pequena burguesia democrática para procurar iludir a classe operária» e que há a possibilidade real de um «golpe fascista e social-fascista» e de «uma guerra civil, a desencadear» brevemente. Em entrevista à revista alemã DER SPIEGEL, Mário Soares afirmava que estamos perante «uma questão de saber se se deseja um sistema de estado autoritário ou uma democracia» em Portugal.
E aqui chegamos ao ponto – a dicotomia «sistema autoritário vs democracia». Estávamos numa encruzilhada. O papão da revolução, a guilhotina, o tiro na nuca, levou-nos falando em termos colectivos, a optar pela «democracia». Esta em que estamos, podendo falar à vontade, mas sem que os protestos encontrem eco. Esta em que estamos – aquela em que não faz sentido distinguir entre democracia e estado autoritário.
Na realidade, no episódio histórico a que chamamos «Revolução de 25 de Abril», o Thermidor chegou antes de que tivéssemos tomado a Bastilha ou assaltado o Palácio de Inverno…

