DIÁRIO DE BORDO, 29 de Julho de 2012

 

Nestes últimos tempos, o panorama político e social tem estado dominado pelas questões que tradicionalmente se arrumam nos campos da economia e das finanças, mantendo na sombra as que dizem mais respeito ao ambiente ou à cultura. Tal facto deve-se obviamente ao  galope desenfreado do capitalismo, que entrou num frenesim autofágico, em que a grande interrogação é: quantos de nós vão conseguir sobreviver, antes que ele rebente?


O desemprego, a destruição das grandes conquistas sociais do século XX, a quebra generalizada dos laços sociais, o crescimento da miséria, a proliferação de guerras regionais, são consequências óbvias desta voragem. Contudo estão latentes outras questões, que, num futuro próximo, se podem vir a tornar tão graves como estas, ou até mais.


Há dias, apareceram notícias de que na Gronelândia está a derreter quase completamente a superfície do glaciar que a cobre. A Gronelândia é uma ilha com cerca de 2000 milhões de quilómetros quadrados. Segundo se lê no Público de 26 Julho, normalmente cerca de 1700 milhões estão cobertos de gelo. No dia 8 de Julho estava a derreter 40 % da área, o que era considerado um pico do fenómeno. Mas no dia 12 de Julho tinha passado a 97 %.


Vejam o Le Monde electrónico, em http://ecologie.blog.lemonde.fr/2012/07/27/la-fin-de-la-planete-en-2100/. Trata-se de uma notícia de 27 de Julho, elaborada por Audrey Garric, sobre um estudo promovido pela revista Nature, que envolveu 22 investigadores ligados a 15 organizações científicas internacionais, intitulado Approaching a state-shift in Earth’s biosphere, que, resumidamente, traça uma previsão que, até ao ano 2100, muitos dos actuais ecossistemas entrarão em ruptura. As mudanças que se prevêem em grande parte da superfície do planeta serão de tal modo brutais que a maioria das espécies e dos ecossistemas não conseguirão adaptar-se. A rapidez das mudanças será muito maior do que nas anteriores mudanças ocorridas na Terra, as quais, mesmo assim, causaram destruições muito consideráveis. Para além disso, existe um factor novo, de grande impacto, os 7000 milhões de seres humanos aqui presentes no século XXI, e que em 2050 serão 9000 milhões.


Os 22 autores do estudo preconizam que os governos ponham em prática quatro acções imediatas: diminuir radicalmente a pressão demográfica; concentrar as populações nas zonas que já têm densidades mais fortes, a fim de permitirem que os territórios restantes reencontrem equilíbrios naturais; ajustar os níveis de vida dos mais rico aos dos mais pobres; desenvolver tecnologias que permitam produzir e distribuir novos recursos alimentares sem aumentar o consumo de recursos em geral.


Como comentário de Diário de Bordo, há a assinalar que estes problemas não são novos e que, em parte, poderão ter outras explicações que não a acção do homem e não atingir os extremos previstos. Contudo, não os enfrentar é esconder a cabeça na areia. A sua gravidade é evidente. Temos de estar preparados politicamente para os enfrentar. Não é no sistema capitalista prevalecente que o poderemos fazer. As mudanças necessárias têm de ocorrer a curto prazo.

 

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