AVISO A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO

António Maria Lisboa nasceu em Lisboa em 1 de Agosto de 1928 e morreu em 11 de Novembro de 1953. Poeta surrealista foi, com Mário Cesariny de Vasconcelos redactor de Afixação Proibida. O texto que dele publicamos, pertence ao primeiro número da revista Pirâmide, publicada em Fevereiro de 1959. A obra de António Maria Lisboa foi em grande parte publicada postumamente na editora Contraponto, de Luiz Pacheco. A sua obra principal está nos livros: Afixação Proibida (1949),Erro Próprio (1950);Ossóptico (1952);Isso Ontem Único (Lisboa, 1953);A Verticalidade e a Chave (Lisboa, 1956);Exercícios sobre o Sonho e a Vigília de Alfred Jarry seguido de O Senhor Cágado e o Menino (Lisboa, 1958); Uma Carta: Estrela da Ilha em Puros Ministros (Lisboa, 1958).

Declara-se para que se saiba:

1.º que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas veze achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2.º que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las, no entanto, fruto e elemento exacto e necessário da sociedade — com quem não simpatizamos igualmente.

3.º que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres-fortes dos segredos do Estado: ignoramos-los.

4.º que sendo individualidades e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regosijo em ver essas mesmas normas nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5.º que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6.º que a crítica é a forma da nossa permanência.

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Acreditamos que nestes seis pontos fundamentais vão os elementos necessários para que o Estado, os Governos, a Polícia e a Sociedade nos respeitem; nós há muito que nos limitamos neles e neles temos conhecido a maior liberdade. Não se têm do mesmo modo limitado o Estado, a Polícia e a Sociedade e muito menos o seu último reduto: a família. A eles permaneceremos fiéis, pois todo o nosso próprio destino e não só parte dele a estes seis pontos andam ligados como homens, como artistas, como poetas e por paradoxo como membros desta sociedade.

Julho de 1953

António Maria Lisboa

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