DIÁRIO DE BORDO, 28 de Agosto de 2012

 

Ouvimos e lemos coisas espantosas. Um senhor com um cargo no PSD, Moreira da Silva, anda por aí a dizer que Portugal precisa de um choque de empreendedorismo. Numa entrevista que deu ao jornal Público, há já algum tempo, disse também que o choque não passa apenas pela criação de empresas, mas também por uma revolução de mudança de mentalidades. E ainda que o empreendedorismo é o maior combustível de Portugal. Agora, numa chamada universidade de Verão do PSD, voltou a repetir a prédica.

É espantoso porque, para além de outras coisas, revela uma ignorância crassa. Será talvez de admitir a hipótese de que Moreira da Silva fala por si, com uma carreira partidária, ou pelo círculo que o rodeia, que possivelmente confunde com o país. Na realidade, trata-se de mais uma atrocidade. Mas o que será o empreendedorismo? Que espécie de mentalidade requer? Que revolução? Será talvez a vontade de promover novas actividades? De correr os riscos inerentes a mudar de vida? De mudar de país?

Há já cerca de quarenta anos estiveram em Portugal dois senhores brasileiros, numas reuniões de trabalho, com pessoas nada afectas ao regime vigente na altura. Pelo que Diário de Bordo conhece dessas reuniões, decorreram num ambiente de lamentação pelo estado de coisas dominante no nosso país, de reflexão sobre as possibilidades de mudança, e alguém aventou que as dificuldades que impediam essa mudança do estado de coisas vigente se deveriam bastante a uma tradicional apatia e falta de iniciativa dos portugueses. Muitos presentes corroboraram esta opinião. Pois ouviram uma repreensão em regra dos dois brasileiros que, nomeadamente, lhes puseram a questão: como é que um povo tradicionalmente de emigrantes e viajantes pode alguma ser composto de pessoas apáticas e sem iniciativa? Os  presentes ficaram muito espantados, mas tiveram de reconhecer a razão dos visitantes brasileiros.

A prédica de Moreira da Silva é apenas outra versão daquela que insiste no fim da zona de conforto para os portugueses que trabalham, sobretudo dos portugueses que trabalham para viver, ou que estão aposentados, e agora ficaram sem subsídios de férias e Natal, ou disso estão ameaçados. Sobre o seu espírito empreendedor ele, na realidade, deve ser parecido com o de um personagem de um filme que Diário de Bordo julga ter sido visto por muita gente, Os Onze do Oceano. O referido personagem (interpretado por Peter Lawford?), filho de uma senhora muito rica, nunca se tinha cansado muito na vida, e esse facto era-lhe constantemente atirado à cara pelo padrasto, indivíduo que se gabava ter subido na vida por todos os processos, nem sempre os mais límpidos (talvez alguns, ou muitos, também o considerassem um empreendedor). Um belo dia, depois de mais uma sessão de gabarolice, que inclusive envolvia uma história de roubo de sapatos, o filho da senhora muito rica, já um tanto fatigado, respondeu-lhe: “Fiz muito melhor que isso. Escolhi pais ricos.”

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