«A lusofonia é uma arma estratégica de importância capital para uma afirmação internacional autónoma e forte.
A opção geoestratégica portuguesa, uma vez terminado o seu império ultramarino, como é da sua conveniência inquestionável, deve retomar a prática política internacional do seu bem sucedido univerlismo de antanho e fazê-lo não só porirmã questão de fidelidade histórica, mas, também, para poder colher benefícios dos consequentes relacionamentos bilaterais, sobretudo com cada qual daqueles grandes potentados económicos que se, hoje em dia, já estão colocados muito para além duma simples emergência, muito em breve, alcançarão preponderância significativa, senão decisiva, na vida internacional.
Se, por força e na consequência das Descobertas, esse universalismo português foi praticado séculos atrás – antes mesmo que o fosse tentado ou conseguido por qualquer outro Estado do mundo – então, após o 25 de Abril e, por maior razão,depois da Descolonização, podia e devia ter sido tomado já que, mercê das consequências felizes destes factos históricos, Portugal passou a dispor de condições políticas para poder alcançar uma afirmação internacionalmuito positiva e inequívoca. Ao contrário do que tem acontecido, será bom não se esquecerem mas, sim, reavivarem-se as excelentes, notáveis e inequívocas visibilidade e projecção políticas internacionais que, em 1975, foram obtidas por Portugal e que, todo o mundo, viu confirmadas na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, quando aí discursou o então Presidente da República, Marechal Costa Gomes.
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Na Constituição da República Portuguesa, no número três do seu Artigo 7.º, está escrito que “Portugal reconhece o direito dos povos à sua autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão”. Infelizmente, esse reconhecimento não passa de mais uma frase que a nada obriga. Se assim fosse, não era possível aos sucessivos governos portugueses continuarem a não apoiar, como exemplos muito pertinentes, entre muitos outros, os movimentos de independência justíssimos que, duma maneira mais ou menos evidente, têm a coragem de se insurgirem contra, entre outras, as dominações castelhana, inglesa, prussiana, piemontesa, russa ou chinesa. Quantas Nacionalidades subjugam? “La Troisième Europe” – escreveu o bretão Yann Fouéré, em 1968, na sua obra L’Europe aux Cent Drapeaux – “ne pourra naître que de l’effacement des actuels États-nations souverains, communs diviseurs de L’Europe et legs attardé du XIX siècle: ces grandes formations étatiques – France, Espagne, Italie, Belgique, Grabd-Bretagne, Russie… – doivent être divisées.”
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Portugal, depois da Descolonização, por coerência elementar, tinha obrigação de não ter de acompanhar de perto e de não aceitar os desenvolvimentos de índole expansionista dos estados centrais europeus, muito em concreto, aquelas situações de colonização inquestionável que ainda são mantidas na própria Europa. Só Portugal é que não podia ter colónias?
Com efeito, por erro da política governamental portuguesa – que só diminui o estatuto da nossa Nacionalidade – essas formas políticas de opressão ainda agora vigentes em plena Europa e que só não são vistas por quem não quer, entre nós – erro inaceitável – não merecem o reparo que lhe é devido, inclusive, forte descaramento, até são consideradas como situações aceitáveis, fruto de legítimas inevitabilidades históricas, inclusive, forte descaro, chega a reafirmar-se, serem do agrado e conveniência dos submetidos. Quem tem governado em Portugal, por espírito servil e comportamento cobarde, aceita que na Europa, sempre tão endeusada e sempre apontada como cultora duma democracia exemplar, apesar disso, continue a praticar-se o colonialismo que, e muito bem, a nós, foi proibido. Será mininamente aceitável, como exemplos, entre muitos outros, que os bascos, os catalães, os andaluzes e os galegos tenham de permanecer colonizados? Castela tem mais direitos do que Portugal?
Só a colonização portuguesa é que era inaceitável?
Aos outros estados tudo é permitido?
Aceita-se sem recalcitrar?
Que dizer de tanta hipocrisia e não menor cobardia? Pelo menos, no uso duma imensa indulgência, não calar e repetir, como escreveu o saxão Friedrich Nietzsche, que “há nisso, um quase nada de mal, porém, muito de pouco bom”.
Carlos Leça da Veiga
Outro Caminho
Edição Salamandra, 2012
pp. 124-125, 128,169-170


Só Portugal não podia ter colônias? – pergunta Carlos Leça da Veiga.
Como é que a Europa aceita no seu seio estados que mantêm nacionalidades oprimidas?