Creio que conheci, em tempos, o Luís Osório (LO). Há muitos anos. É certo que os anos passam, as pessoas mudam.
LO tem um espaço radiofónico na Antena 1, o “Postal do Dia”. Não sou um ouvinte habitual. Amigos meus, porém, enviaram-me o podcast desse programa do passado dia 23 de abril. Entre surpreendido e indignado, nunca pensei que se chegasse a tanto.
O radialista deu um título ao seu postal: «Abandonámo-los por serem pretos». Queria referir-se a nacionais das colónias que na guerra colonial haviam servido nas Forças Armadas Portuguesas (FAP) e nas Forças Auxiliares (FAux) e, que, com as independências, teriam sido abandonados por Portugal nos seus países. Acrescenta: «Não puderam embarcar, deixaram-nos em terra, abandonados à sorte.»
Uma calúnia infame, que tem servido de arma de arremesso aos saudosos do império colonial que nunca se conformaram com o 25 de Abril, que está por demais denunciada e esclarecida. LO quis tornar-se seu porta-voz. Refere-se, em particular, aos Flechas em Angola e aos Comandos Africanos na Guiné.
Não vou entrar em detalhes, o espaço não o permite. Limitar-me-ei a estes dois casos, exatamente os que mais têm mobilizado os nostálgicos colonialistas.
Em junho de 2012, o Núcleo Impulsionador das Conferências da Cooperativa Militar (NICCM), promoveu a V Conferência a que chamou “Pronunciamento Militar do 25 de Abril de 1974”. No debate que encerrou o Painel IV, sobre a “Transmissão da Soberania em África”, merece destaque a intervenção do tenente-general Sousa Pinto:
«Foram postos à disposição dos comandos africanos os meios aéreos necessários para os transportar para Portugal, a eles e às suas famílias. Inscreveram-se para vir para Portugal, cerca de trezentos […] É o comando africano, capitão Sayegh, que sendo parente de alguns elementos do PAIGC se reuniu com eles no Senegal, e eles o convenceram que iriam fazer daqueles comandos africanos, a tropa de elite do PAIGC. E é o Sayegh que convence todos aqueles que já estavam inscritos, a não virem. Eu assisti ao governador Fabião a querer convencer o Sayegh que ele estava doido, ele que não impedisse quem quisesse vir, porque senão aquilo podia dar para o torto […] Todos eles desistiram, como se sabe vieram para Portugal aqueles que não tinham dúvidas, o Marcelino da Mata e mais três ou quatro, mas não é verdade que Portugal tenha tido qualquer coisa a ver com o facto de que eles não tenham vindo. Não vieram porque não quiseram […]»
Depois toma a palavra o coronel Matos Gomes:
«Ainda relativamente aos comandos africanos, a questão que o general Sousa Pinto colocou é exatamente assim, logo a partir de maio, há elementos do Batalhão de Comandos Africanos que começam a ter ligações e contatos com elementos do PAIGC […] No caso do capitão Sayegh, ele tinha um irmão que era do PAIGC e a mulher também era.»
Ainda sobre as soluções adotadas para os comandos africanos, escreve o coronel Sales Golias no seu livro A descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos capitães (Colibri, Lisboa, 2016, p. 199):
«A vinda para Portugal por ser a solução mais segura […] teve larga aceitação e chegou a estar garantida a ida para Portugal de mais de 300 pessoas. Ou seja, como este número inclui as famílias, dos 300 comandos muitos preferiram ficar, mas os quadros mais destacados aceitaram. Porém, o capitão Saiegh, que tinha familiares no PAIGC, reuniu com eles e foi convencido a ficar pois garantiram-lhes que iriam ser transformados em tropas de elite. E já não ouviram as vozes avisadas que os tentaram demover desta ideia, principalmente o brigadeiro Fabião que tentou veementemente convencê-lo a vir para Portugal. Alguns acabaram por vir, como Marcelino da Mata e outros.»
O general Sousa Pinto está vivo. Na altura capitão, comandava a Companhia de Polícia Militar em Bissau. O coronel Matos Gomes, infelizmente já falecido, então capitão comando, foi segundo comandante do Batalhão de Comandos da Guiné, e é um dos nomes mais respeitados da literatura portuguesa contemporânea, quer como ensaísta da área do 25 de Abril e da guerra colonial, quer como ficcionista com o pseudónimo Carlos Vaz Ferraz. As afirmações de ambos acima citadas constam do livro de Atas da referida Conferência, Pronunciamento Militar do 25 de Abril de 1974, NICCM, Lisboa, 1974, pp. 274 a 276. O coronel Jorge Golias, também vivo, era capitão e o mais destacado dinamizador do Movimento dos Capitães na Guiné, aliás pioneiro na sua politização e evolução para o MFA em todo o país, vindo a ter um papel determinante na transferência do poder naquela colónia.
Tudo isto foi ignorado por LO.
No que aos Flechas e a Angola respeita, repete-se a ignorância e desinformação infamante. Se LO tivesse o cuidado de se informar saberia que os Flechas não eram militares das FAP, nem mesmo elementos de FAux. Eram grupos armados criados pela PIDE/DGS que atuavam autonomamente. Depois da independência foram, na maioria, para a África do Sul e muitos integraram-se nas forças de segurança do regime do apartheid, SADF (Bat. 32 Buffalo), combatendo no interior de Angola em apoio da UNITA. Os angolanos, brancos ou pretos que haviam sido militares das FAP ou das FAux, não foram perseguidos por esse motivo. Com a aproximação da independência e depois desta, houve uma corrida dos três Movimentos de Libertação, FNLA, MPLA e UNITA, para recrutarem ex-militares e ex-militarizados das FAP para as suas estruturas armadas. Vieram a confrontar-se na cruenta guerra civil que recomeçou depois do Acordo do Alvor, que já tinha as suas raízes na guerra colonial e foi alimentada pelas intervenções armadas externas. Mataram-se uns aos outros, mas não por terem sido militares portugueses. Foram poucos os quiseram vir para Portugal e não lhes foi negado.
É o sensacionalismo de sound bites e fake news: “foram abandonados”, “por serem pretos ficaram lá”, “o mais vergonhoso episódio da descolonização portuguesa”. Produz efeitos fáceis e esconde a realidade. Só que é falso, é desonesto, é uma infâmia.
*
Os mesmos amigos enviaram-me um segundo podcast, também de Luís Osório. Menos grave o conteúdo, mas igualmente revelador de deficiente preparação do profissional. É uma, mais uma, entrevista com Vasco Lourenço (VL) que, beneficiando da sua “presidência vitalícia” da Associação 25 de Abril, se desdobra, ad nauseam, em tentativas de reescrita da história centrada no seu ego, alardeando uma liderança e responsabilidades no golpe de estado do 25 de Abril, que nunca exerceu nem nunca teve. O que venho designando “Vasco Lourenço no 25 de Abril visto pelo Vasco Lourenço”.
O entrevistador tinha obrigação de se documentar sobre o seu convidado, de se preparar para enfrentar o seu recorrente discurso. Não o fez e o resultado foi a sua introdução à entrevista: «O coronel Vasco Lourenço é o grande herói que resta do 25 de Abril. Na verdade, foi o único militar que esteve e foi o estratega da revolução dos cravos, mas também do 25 de Novembro».
– O grande herói que resta do 25 de Abril? Não houve outros, ou já morreram todos? (i)
– O único militar que esteve? Esteve aonde?
– O estratega da revolução dos cravos e do 25 de Novembro? O que sabe LO de estratégia?
Se tivesse feito o trabalho de casa LO só poderia chegar a uma conclusão: o papel de VL na preparação, organização, conceção e conduta da Operação “Viragem Histórica”, em 25 de Abril de 1974, foi ZERO. Eu repito, para que não haja equívocos, ZERO.
E não há aqui qualquer disputa de protagonismos porque também eu, o meu papel na Operação “Viragem Histórica”, foi zero. Porque, com muita pena, não estava cá. Só que, ao contrário de VL, nunca ninguém me verá, ou ouvirá, arrogar-me do que não sou, invocar o que não fiz, apoderar-me do que outros fizeram. Já afirmei: só está interessado em reescrever a História na primeira pessoa quem não confia no que a História dele dirá. Não padeço dessas angústias.
Por último, é intrigante que LO ignore que os estrategas, se assim quisermos chamar aos principais responsáveis operacionais do 25 de Abril e do 25 de Novembro, têm nome, toda a gente sabe quem são e merecem respeito: chamam-se Otelo Saraiva de Carvalho e António Ramalho Eanes.
4 de Maio de 2026
(i) Saiba LO que, felizmente, ainda restam militares do MFA que, esses sim, estiveram nas ruas, no Continente, onde se fez o 25 de Abril: Delgado Fonseca, Pita Alves, Piteira Santos, Rui Rodrigues, Ferreira do Amaral, Aprígio Ramalho, Castro Carneiro, Helder Neto, Frias Barata, Cardoso de Sousa, Bargão dos Santos, Pina Monteiro, Sousa e Castro, Morais da Silva, José Luis Cardoso, Rosário Simões, Duarte Mendes, Rosado da Luz, Ponces de Carvalho, Freire Nogueira, Glória Alves, Andrade da Silva, Correia Bernardo, Candeias Valente, Tavares de Almeida, Correia Assunção, Miguel Marcelino, Sanches Osório, Santos Coelho, Fialho da Rosa, Pinto de Castro, Soares Canavilhas, Moreira Azevedo, Bacelar Ferreira, Manuel Geraldes, do Exército. Costa Neves, Mendonça de Carvalho, Santos Silva, da Força Aérea. Geraldes Freire, Costa Correia, Martins Guerreiro, Ferreira da Silva, Caldeira Santos, Simões Teles, Nuno Anselmo, Vargas de Matos, Soares Rodrigues, Pedro Lauret, da Armada. E outros que me desculpem, não me vieram de imediato à memória.


A mentalidade política da maioria deste povo, deste povo de brandos costumes, é clericalmente fascizante, endoutrinado durante cerca de 50 anos. Cinzento, subserviente e ávido de salivar por um pedacinho de vã glória. A grandeza e dignidade dos homens e mulheres dilui-se na indiferença e na ruindade. Há exceções. Como Pezarat Correia.