Dividir para reinar é uma expressão que há muito faz parte da linguagem comum. Usa-se quando alguém, com cargos de chefia, ou com intenções manipuladoras, quer tirar partido de diferenças entre as pessoas, para manter o seu poder, ou tirar partido da situação, normalmente em proveito próprio. É sabido que, desde sempre, nas várias civilizações, existiram minorias de abastados que controlavam o poder político. Para dominarem os restantes elementos da população, desprovidos de recursos, muitas vezes reduzidos a estados de servidão/escravatura, recorriam aos mais diferentes processos, desde contratarem guardas pretorianas, até criarem divisões e rivalidades entre os pobres, para os levarem a guerrearem-se entre si, e assim poderem manter o poder e a riqueza concentrados nas suas. A divulgação de ideologias conservadoras (hoje em dia chamam-lhe liberais), através da religião ou do sistema jurídico, têm servido também esse objectivo de defesa da estratificação social dominante, em favor de quem dela tira proveito.
As ideias democráticas têm posto em causa este estado de coisas, com resultados práticos bastante relativos. Hoje em dia, os donos da riqueza (de Portugal, da Europa, do mundo em geral) continuam a gerar conflitos, crises, guerras regionais e mundiais, que lhes permitem ir-se mantendo à frente dos seus negócios (atenção, negócios é um eufemismo) e defender os seus privilégios. Olhemos por exemplo o que se passa em Portugal, entre os trabalhadores do sector público e do sector privado. Tradicionalmente os primeiros usufruíam de privilégios como uma maior garantia de segurança no posto de trabalho, em troca, para a maioria deles, de uma fidelidade pouco estimulante em termos profissionais. Entretanto, entre os que trabalhavam no sector privado, divulgaram-se ideias de superioridade de competência, de eficiência, e de um sentimento caricato de superioridade em relação á função pública. Ultimamente, à sombra das chamadas privatizações, tem-se procurado colmatar as diferenças entre os dois sectores, o que até seria positivo, se, como acontece na maior parte dos casos, não se tratasse de um nivelamento por baixo.
No Diário de Notícias de quinta-feira passada, dia 13 de Setembro de 2012, vem uma interessante entrevista com Tiago Gillot, dos Precários Inflexíveis. São abordadas vários reflexos da chamada crise que nos avassala, e Tiago Gillot responde com grande segurança e conhecimento. A certa altura, respondendo a uma pergunta de Fernanda Câncio (ver http://www.precariosinflexiveis.org/2012/09/tiago-gillot-da-ass-combate.html) diz: “… há uma tentativa de criar um pensamento hegemónico que divide a sociedade entre pessoas que têm supostamente direitos exuberantes e as outras que não têm nenhum. Na tentativa de fixar a ideia de que a culpa do não acesso ao emprego é de um excesso de garantias dos que o têm. O objectivo é generalizar a precariedade e o desemprego a toda a sociedade, desvalorizar salários e retirar direitos. A precariedade é um plano.”
Melhor dito é muito difícil, para não dizer impossível. Aqui há tempos Paulo Portas opinava que lhe parecia ser justo que os trabalhadores do sector público fossem mais afectados dos que os do privado porque o estado era o responsável pela crise. No meio de todas as asneiras que disse, incluiu mais uma: os trabalhadores do sector privado foram sempre afectados, na medida em que os pensionistas, tanto os do sector público como os do privado, também viram os seus subsídios cortados. Mas obviamente que a intenção do ilustre senhor era explorar a divisão entre os trabalhadores do sector público e do sector privado. Entre os que supostamente têm garantias e os que não as têm. A intenção é ninguém ter garantias. E responsabilizar os trabalhadores e o povo em geral pelos erros dos chefes. De todos os Passos/Portas, Merkel/Sarkozy, Merkel/Hollande, Barroso/Rompuy, etc..
