OPINIÃO – UM PINGO… DE VERGONHA – por Adão Cruz

Outro argonauta que dispensa apresentação – Adão Cruz – médico cardiologista, apesar de excelente, é melhor lermos os seus textos e vermos a sua magnífica pintura do que termos de recorrer à excelência dos seus vastos conhecimentos como médico. Ei-lo aqui, de coração aberto:

 Desde os tempos do Fascismo que me habituei a caminhar pelos caminhos da esperança. Depois do 25 de Abril estes caminhos alargaram-se e fizeram-se rios e mares. Não demorou muito a que os predadores da esperança voltassem e se reproduzissem como coelhos. E a erva daninha da desesperança começou a crescer nos prados verdes da minha vida.

 Sobretudo a desesperança num povo que continuava adormecido, anestesiado, inculto, incapaz de reconhecer, minimamente que fosse, o seu verdadeiro inimigo: o poder do dinheiro e dos que tudo roubam, o poder dos “iluminatti” desavergonhados, o poder da desfaçatez e da imoralidade, o poder aniquilador do desenvolvimento mental, político e social, acolitado pelo obscurantismo de uma igreja que nada mais fez e nada mais faz do que transformar as pessoas em carneiros.

 Hoje em dia, dificilmente alguém poderá invocar a ignorância acerca dos crimes que enlameiam todas estas políticas dos defensores da exploração capitalista, dos branqueamentos de capitais roubados ao povo, dos negócios sujos dos offshores, do contrabando de divisas extorquidas ao trabalho de uma nação inteira, da corrida selvagem à conquista de mercados e isenções fiscais. Dificilmente alguém poderá invocar a ignorância, mesmo quando tais políticas proclamam aos quatro ventos que são santas, com acontece neste momento.

 No entanto, inexplicavelmente, ainda há muitas vítimas que as defendem. Que defendem as medidas de governos-desgovernos como este, que mais não fazem do que mostrar que aquilo que devia ser o braço político, executivo e judicial do País é, afinal, um braço-de-ferro com o País. Ou seja, em vez de lutarem com e pelo País, lutam contra ele. Tenhamos ainda alguma esperança de que, ao menos, o braço-de-ferro venha um dia a ser com o povo concreto e não com um país abstracto e amorfo.

 Se o país-povo não manda, por que raio obedecer? Ninguém, em pleno juízo político, se pode rever nas políticas autistas e agressivas deste governo, composto por tecnocratas neoliberais sem ponta de credibilidade e sensibilidade, que desconhecem o sentido da palavra social.

Por isso, esta manifestação de hoje poderá servir para nos medirmos enquanto país-povo, ajudando a não sermos tentados a adoptar a ideia de que os portugueses são uns paspalhos mansos que acatam todas as austeridades. Esta manifestação pode ser mais um farrapo de leite social que faz toda a diferença no obscuro e denso café economicista e destrutivista do Governo – em suma, um pingo… de vergonha.

3 Comments

  1. Eu sou povo concreto, muralfa e aço e não é esta “canalha” que me me fará desistir do meu
    grito de vida. Um texto cheio de força, Adão, obrigada.

  2. Meu caro amigo,
    Só quero manifestar-me contra o facto de lhes chamar tecnocratas. Pensava-o mais rigoroso. Tecnocratas, estes gatunos de todos, da minha reforma, dos salários dos meus trabalhadores, do povo em geral? Que doce lhes dá, Adão..
    Um abraço amigo.
    SM

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