Os estados começam sempre por não o ser. Os territórios onde se constroem nações, são sempre propriedade legal de outro povo. Por isso, a criação de um estado é sempre acompanhada daquilo a que uns chamam roubo ou invasão, e outros designam por libertação, conquista, povoamento, colonização. Portugal foi uma nação completamente inventada. Limitado a Oeste e a Sul pelo Atlántico, sem fronteiras naturais a Norte e a Leste, é uma invenção preservada ao longo de mais de nove séculos. Vassalo do rei de Leão, D. Afonso Henriques começou por quebrar os vínculos de vassalagem. Depois foi a vinda para Sul – a Reconquista. Na perspectiva dos mouros que já aqui viviam há muitas gerações, tratou-se de uma invasão. O sonho dos cristãos, foi o pesadelo dos muçulmanos. Como sempre acontece quando se constrói uma nacionalidade.
Esta nação que começou por ser um pequeno condado e pelo capricho de um jovem que não queria ser vassalo de seu primo, conseguiu que as gentes que o povoavam interiorizassem o conceito de nacionalidade. Nos alicerces deste sentimento, há factos e há mitos e lendas. Convicções indefensáveis à luz da ciência histórica, servem de cimento à identidade nacional. Como sempre acontece. Sete séculos depois de uns galego-durienses, vassalos do Reino de Leão, terem inventado Portugal, houve uns portugueses que inventaram o Brasil. E hoje o Brasil existe. E de que maneira!
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Só por ter motivado uma tão bem escrita e interessante réplica de Sílvio Castro já mereceu a pena eu ter falado no Brasil. Declaro que estou de acordo com quase tudo o que diz. As críticas que faz à avidez colonialista são justas e historicamente correctas. O saque, a apropriação das riquezas do território é um facto indesmentível. E lembro que logo afirmei não pretender branquear o que de horrível os portugueses fizeram nas suas colónias. A única coisa que de forma implícita perguntava e que agora pergunto explicitamente é: que potência colonial procedeu correctamente, investindo nos territórios colonizados o produto das suas riquezas? Que potência colonial deu prioridade à educação, aos cuidados de saúde e à satisfação das necessidades mais básicas dos povos colonizados? Fazendo um balanço – as ex-colónias de Grã-Bretanha, França, Espanha, Bélgica, Países Baixos… são países mais evoluídos do que o Brasil, Angola; Moçambique, Cabo Verde? A resposta é óbvia.
A colonização portuguesa cometeu crimes? Claro que sem – era a própria natureza da exploração colonial que determinava esse comportamento, que hoje consideramos desumano, mas que na época era normal. O canibalismo já foi um comportamento normal. Para não irmos mais longe, aqui na Península, perto de Burgos, há mais de um milhão de anos, arqueólogos descobriram vestígios de comunidades do Homo antecessor, a primeira espécie humana a povoar a Europa que praticava a antropofagia, para se alimentar e não como cerimónia ritual – o menu era fornecido por gente de tribos inimigas. Para continuarmos sem sair do território da hispanidade, no Brasil, os índios Tupinambás praticam ritualmente o canibalismo. Será justo julgar o comportamento de seres do pleistoceno inferior e de ameríndios que nada têm a ver com a nossa civilização á luz dos modelos comportamentais do século XXI?
E também a forma como Portugal saiu das colónias sofre comparação elogiosa com a de outras potências. Logo que recuperada a democracia, mesmo nos territórios onde a situação militar não era desesperada, Portugal reconheceu a independência de todas as colónias. França, libertada da ocupação nazi, não concedeu a liberdade às suas colónias – Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Países Baixos… todos procuraram conservar os territórios coloniais.
Declarei concordar com quase tudo o que Sílvio Castro defende. Há um ponto em que discordamos e sempre discordaremos. É uma divergência de estimação e que há cerca de vinte anos começou num almoço na Batalha em que estava presente também o Manuel Simões: não existem brasileiros antes de ser proclamada a independência; é, aliás, o critério aplicado a Portugal – não dizemos que Viriato era português – não se pode ter uma nacionalidade que ainda não existe.
Não me canso de citar Eduardo Lourenço num debate que as Questões e Alternativas organizaram no Centro Nacional de Cultura e que explicou a um brasileiro que durante a sua intervenção pusera a questão nesses termos maniqueístas – nós, os brasileiros, oprimidos por vós, os portugueses. O grande humanista explicou que os antepassados dos actuais brasileiros é que foram os opressores. Os avós dos portugueses que por aqui ficaram, não oprimiram ninguém. Por isso digo ao amigo e Professor Sílvio Castro:
Meu querido amigo, tens um apelido tipicamente hispânico – Castro. É, aliás, um nome de gente ilustre, da Galiza – Inês de Castro, Rosalía de Castro, Fidel Castro, e de Portugal – D. João de Castro e o Eugénio de Castro, por exemplo. Os meus avós deixaram-se ficar por Lisboa, Celorico da Beira, Vila Nova de Foz Côa. Os teus saíram daqui, atravessaram o oceano e foram oprimir os futuros brasileiros. Ou não?
