AINDA SOBRE IRENA SENDLER – CANONIZAÇÕES E OUTROS NEGÓCIOS – por Carlos Loures

Passaram há dias dez anos sobre a canonização de José María Escrivá, o fundador do Opus Dei. Não temos nada a ver com quem a igreja canoniza ou deixa de canonizar. A Igreja lá saberá os critérios que utiliza para colocar alguém na antecâmara da santidade. Não temos que ver com os assuntos internos da Igreja, tal como a Igreja nada devia ter a ver com os assuntos que não lhe dizem respeito. E tudo o que se passa para lá do adro e da sacristia, nada lhe diz respeito. Porém, já o ouvi a muitos sacerdotes, «tudo o que diz respeito aos homens, tem a ver com a Igreja». É um pressuposto interno, mas que, com o poder que o estado supostamente laico lhe concede, acaba por se transformar num poder efectivo. Como se viu com a questão dos feriados. Voltemos às canonizações.

Quando canoniza alguém como Pio XI, a igreja está a provocar a ira das vítimas do holocausto, das vítimas do nazismo e do fascismo – o cidadão italiano Eugenio Pacelli devia ter sido julgado em Nuremberga e executado como reles criminoso de guerra: amigo e aliado de Hitler e de Mussolini, protector de criminosos nazis a cuja fuga auxiliou. Tinha o dever de ter protestado contra o genocídio praticado contra os judeus e não só – calou-se e implicitamente apoiou.. José María Escrivá que há dez anos foi canonizado, não terá uma folha tão negra. Fala-se de negócios obscuros e de ligações a grupos mafiosos. Não sei nem me interessa. Naturalmente, que se foi sempre este o critério das canonizações, bem vai a corte dos santos. Há dias falámos de pessoas como Aristides de Sousa Mendes, Irena Sendler. Não se limitaram a postar-se de joelhos e a esperar um milagre – puseram mãos á obra e salvaram milhares de seres humanos, na mesma época em que Pacelli mantinha boas relações com Hitler. Com Mussolini as relações estiveram fragilizadas pelo adultério declarado que mantinha com Clara Petacci. Matar seis milhões de seres humanos, ainda vá que não vá. Um adultério, não se perdoa.

Esta é a hierarquia de valores numa igreja (como todas) edificada sobre lendas, superstições, actos pagãos reciclados, elegendo como figura nuclear um judeu que nunca terá manifestado a intenção de fundar uma nova crença, uma religião supostamente baseada  no desiderato de uma equidade social, mas que sempre esteve com os ricos e poderosos, vai criando os seus santos. E por estes dois de que falámos, pode calcular-se como serão muitos deles.

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