CARRUAGEM? – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Anteontem sonhei com a casa onde passei tantos dias da minha meninice. Ali, na encosta que vai do Alto de S. João até à Igreja Madre de Deus. Um dia destes hei-de mostrar-te onde fica, é logo por baixo da antiga Quinta dos Peixinhos, mas bem por cima das oficinas da CP, em Sta. Apolónia. Quem a construiu foi o meu Avô ferroviário. Ele não era mestre d’obras mas não se atrapalhava, seguiu a traça de uma carruagem de comboio. A casa tinha duas entradas, uma em cada extremo. A virada a sudoeste é que era a principal, a das visitas. Do lado esquerdo sucediam-se os compartimentos, quatro quartos, duas casas de banho,, um escritório, uma sala de estar, uma casa de jantar, logo depois a cozinha e a dispensa. Do lado direito uma fileira de janelas sobre o Tejo, o Mar da Palha, o cais, os guindastes, os navios, os comboios a chegar e a partir, uma locomotiva sempre em manobras; na outra banda os fumos do Barreiro; ao longe as sombras das serras de Palmela e Arrábida, deslumbramento para quem ali se debruçasse. Até parecia que a carruagem estava parada em cima de uma ponte para que os passageiros melhor desfrutassem a paisagem…

Excepto as casas de banho e a dispensa, cada compartimento tinha duas portas, uma para o corredor, outra para o quintal das traseiras, afinal jardim com uma nogueira e duas nespereiras, também um pequeno tanque onde se espanejavam os gansos, e ainda uma capoeira para abrigar as aves  no fim da tarde.

Sonhei que o meu avô abria a porta principal e o mar entrava, em cachão,  pela casa adentro. Apavorada, a minha Avó não parava de invocar o nome da Virgem, benzia-se, rezava muito. Já mergulhado até à cintura, o meu Avô levantava os braços, gritava, ria muito:

– Não há perigo! O Afonsinho foi aprovado, passou de ano, é o mar a festejar. Ó mulher, cala-te lá com as ladainhas da padralhada… 

In LIANOR


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