Antes da despedida – Ethel Feldman

(Adão Cruz)

A velha poltrona parece descansar na história de quem passou por ela. Entre a almofada e o forro dormem as coisas que queremos esconder, como a migalha de pão que tivemos preguiça de levar para o lixo.

Sempre supus saber toda a história da minha família. Uma avó excêntrica e generosa, uma mãe infeliz e um homem desconhecido que foi pai por distracção. Nunca tentei explicar por que Canela e eu éramos tão parecidas. Ao contrário de minha mãe, gostava dessa semelhança. Em criança brincava com a minha avó. Suas histórias eram verdadeiras aventuras. Foi com ela que aprendi o ‘faz de conta’,

– Rosa, lembra-te que quando eu disser ‘faz de conta’, tens de fechar os olhos, deves em seguida colocar a mão no nariz, inspirar e quando expirares dás três piruetas. Depois tudo acontece como imaginas…

– Faz de conta que sou princesa e salvo-te do Minotauro…

– Salva-me sempre que puderes, querida…

Quando via minha mãe na cozinha a choramingar propunha que brincasse comigo ao ‘faz de conta’, mas ela zangava-se e dizia-me que já era altura de eu perceber que a vida não era uma brincadeira. Apesar de ficar triste notava o rubor na sua face. Ela mentia. Eu podia brincar ao ‘faz de conta’, sempre que me apetecesse!

Faz de conta, avó que estás aqui. Adia a viagem e conta-me de Setembro.

(excerto de ‘Setembro dos Desgarrados’ – um livro a aguardar que haja editor)

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