EM VIAGEM PELA TURQUIA – 24 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Quinto dia

De manhã bem cedo demos início à viagem que, no 5.º dia, nos levaria até Ancara, a capital da Turquia.

A primeira paragem aconteceu em Kaymakli, uma vila pertencente ao distrito e província de Nevşehir, de que dista cerca de 20 km, para se visitar uma das cinco cidades subterrâneas da Capadócia, conhecida pelo mesmo nome de Kaymakli e que também faz parte do Parque Nacional de Göreme, Património Mundial da UNESCO, como já referimos.

Esta localidade, Kaymakli, foi outrora conhecida como Enegüp, a que os gregos, mais tarde, chamariam Enegobi, tendo sido já os turcos, no primeiro quarto do século XX, a dar-lhe a actual designação.

A cidade subterrânea, a segunda mais importante da região, tem cerca de 100 túneis, mais baixos e estreitos do que os da cidade subterrânea de Derinkuyu, tendo sido descoberta em 1964. Estão abertos aos visitantes 5 níveis, embora os peritos pensem que, no total, são oito, ocupando toda a zona subterrânea uma área de 25 km². Há espaços para as mais variadas actividades que nos parecem naturais como, por exemplo, cozinhas e quartos, mas também para armazenamento de víveres por longos períodos e espaços para a produção de vinho ou estábulos para os animais, o que nos leva a pensar que estas cidades eram pensadas para as pessoas ali viverem por tempos mais ou menos longos. Segundo parece, os víveres eram cozinhados durante a noite, para mais do que um dia, de modo a não chamar a atenção dos invasores, nomeadamente por causa dos fumos que, naturalmente, se produziam.

                       

Representação da cidade subterrânea de Kaymakli (Fonte: http://www.flickr.com)

A sua construção terá sido iniciada pelos hititas, à volta do ano 1300 antes da nossa era, tendo como principal função a protecção contra os perigos de invasão de forças inimigas, como, séculos depois, aquando da perseguição aos cristãos no Império Romano, se mostraram verdadeiramente fundamentais para a sobrevivência das pessoas, ou seja, se o primeiro nível subterrâneo destas cidades se deve aos hititas, o seu aprofundamento é devido a outros povos, nomeadamente os cristãos quando tiveram de se prevenir das perseguições a que foram sujeitos. Da maior cidade conhecida, Derinkuyu, são referidos pelos arqueólogos 20 níveis, sendo 8 visitáveis pelo público em geral, estimando-se que a totalidade atinja 85 metros. Sabe-se também da existência de um rio subterrâneo.

Xenofonte, que viveu entre 430 e 354 antes da nossa era, tendo sido um dos discípulos de Sócrates, para além de chefe guerreiro, escreve em «A Retirada dos Dez Mil», a dado passo: «Antes de ser aliados, circulávamos por esta comarca como muito bem queríamos, pilhando onde encontrávamos que pilhar, deitando fogo onde houvesse represálias a tirar» (tradução de Aqulino Ribeiro, ed. da Livraria Bertrand, Lx 1957), o que nos dá bem a ideia de como se viviam aqueles tempos, que não seriam muito diferentes do que se vivia aquando do tempo dos hititas e que levou as populações a encontrarem uma solução para a preservação das suas vidas na construção destas cidades subterrâneas.

Se a sua construção não remonta àquele tempo dos hititas, parece poder afirmar-se, com maior grau de certeza, que seja do século VIII a. n. e., aquando do domínio dos frígios, mas não há que duvidar da sua antiguidade, como se comprova por aquilo que nos informa o já citado Xenofonte, na referida obra:

«As casas eram debaixo da terra; entrar para elas era o mesmo que para um poço, embora o interior fosse espaçoso. Os animais entravam por corredores em declive, rasgados no solo; os homens desciam por escadas. Nesta espécie de antros havia cabras, ovelhas, bois, galináceos e criação miúda. O gado era sustentado a feno. Também se encontrava ali em profusão trigo, cevada, legumes, e cerveja em talhas. Os grãos de cevada nadavam à superfície e dentro delas mergulhavam canas furadas, umas mais grossas, outras mais delgadas. Para beber, levavam a cana à boca e chupavam. Tal bebida era muito forte e agradável depois de se estar acostumado.

                Xenofonte pôs o administrador a cear ao pé de si, ao mesmo tempo que se dava a tranquilizá-lo, prometendo-lhe que, se guiasse o exército até outro povo sem haver novidade, não só o não privaria dos filhos como lhe encheria a casa de coisas boas para o recompensar do que agora lhe comiam. O arménio prometeu servi-los com lisura e, por sinal, revelou o sítio onde estava o vinho escondido. Os soldados, aboletados naquele povo, passaram a noite comendo-lhe bem e bebendo-lhe melhor, sem deixar de ter de olho o administrador e os filhos.» (o. c., pág. 196).

Xenofonte, no dia seguinte, vai de aldeia em aldeia na companhia do administrador, e escreve:

«Aqui, além, não o deixavam partir, sem primeiro se haver sentado à mesa com eles. E nada ali faltava: cabrito, porco, vitela, frangãos e pãezinhos de trigo e de cevada. Tinha também de beber com uns e outros. Levavam-no às talhas, metiam-lhe a cana na boca e toca a sorver cerveja como um boi sorve água duma pia.» (o. c., pág. 197).

Diz-se que existem nesta região cerca de 36 cidades subterrâneas, como se admite que haverá um túnel que ligava Kaymakli à maior das cidades subterrâneas escavadas, que é Derinkuyu, a mais ou menos 10 km de distância.

(Continua)

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