LARGO DO CARMO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 Largo do Carmo, pois claro. Já vejo! Mergulho, já vejo tudo: por tanto povo, pelos tanques e soldados, pelo quartel aferrolhado a sete chaves, pelo Marcelo em conserva de família, pelo ministro que se borra pelas pernas, já vejo que desperta a liberdade! Pela orelha do tenente junto à rádio; pelo gatilho sob o dedo indeciso; pelo canhão a evitar ponto de mira; pela cautela em disparar uma bojarda; já vejo que demora a liberdade! Pela velhota que me dá cravos vermelhos; pelo garoto a gatinhar sobre o chaimite; pelas varinas a arrearem as canastras; pelo cornudo a espreitar entre cortinas; já vejo que desperta a liberdade! Por estas águas a quebrar contra a falésia; por este carro preto a dividir o povo; pelo monóculo fardado à general; por esta continência de portão aberto; já vejo que demora a liberdade! Mas pelas trancas arrancadas ao portão; por ver maré que bem batida por oeste; por ver Caetano transportado na gaiola; pelos meus punhos a baterem no chaimite; já vejo que desperta a liberdade! Pela miúda a pôr um cravo num fuzil; por este povo amarinhado sobre as árvores; pelo chapéu que um homem velho atira ao ar; pelo vermelho de repente desfraldado; já vejo que desperta a liberdade! já vejo que ensopado tenho o rosto e abraço meus irmãos que desconheço! já vejo que fascismo nunca mais e grito:

– Morte à Pide!

E lá vamos todos em direção à António Maria Cardoso a gritar pelas ruas:

– Morte à Pide, morte à Pide, morte à Pide!

In MATA-CÃES

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