OS DESALINHADOS – por Augusta Clara

Ali estávamos nós, no cartório da Rua Alexandre Herculano, com a papelada toda pronta para registarmos a Associação Portuguesa de Esquerda Não-Alinhada. Era o princípio dos anos 1980 e ainda não tinha caído o Muro.

– O que é que vão fazer com isto? – perguntou o notário com um sorriso de superior condescendência. Tentámos explicar-lhe o melhor possível mas o homem deve ter segredado aos seus botões: – “mais uma bizarria de esquerdalhos”. E, continuando a sorrir, lá nos fez a vontade de escrevinhar no grande livro das escrituras a nossa legalidade e a permissão de podermos desalinhar à vontade dali para a frente.

Foi mesmo o que aconteceu: a Associação não passou do papel mas deixou-nos desalinhados para o resto da vida. Ainda cá andamos, somos alguns dos argonautas, e não há ninguém que nos meta nos carris.

Dizia um dos associados de então que falar nisto seria o mesmo que virar a bandeira do avesso. Não creio. Já não é um caso raro, nem  nenhum notário sorriria assim. Anda todo o país descarrilado. O que é muito pior do que andar desalinhado.

Porque me veio este episódio à lembrança se não era disto que tencionava falar? Insondáveis mistérios esses, os das associações da mente.

Ah, já sei, embora o problema seja o de como fazer a agulha.

Lembrei-me do caso daquela menina que, numa escola de Quarteira, ficou sem almoço porque os pais não o tinham podido pagar. Alguém consegue imaginar-se no lugar daquela criança? Tirada do conjunto dos miúdos com quem costumava alinhar nas refeições, por muito que lhe tenham fornecido outro tipo de alimentos – numa sala à parte – como terá engolido o desgosto e a humilhação a que a submeteram?

Não tem a ver uma coisa com a outra? São realidades de espectro muito diferente? Olhem que nem tanto. Da menina da escola de Quarteira, descriminada por uma só pessoa, a directora, passa-se aos doentes terminais nos hospitais, abandonados não pelos profissionais de saúde mas por decisão colectiva dum poder evocando escassez de recursos económicos. E, por este caminho, outros, individual ou formando grupos específicos, serão banidos a seguir.

Sabemos o que as “razões económicas” fizeram nesta Europa civilizada em que os comportamentos individuais legitimaram atrocidades que poderiam ter sido evitadas se o povo – refiro-me em primeiro lugar ao da Alemanha, claro, mas nem só – se tivesse oposto.

Ou desalinhamos todos ou o colectivo do poder contaminará o individual e muitas directoras da Quarteira se reproduzirão.

A nossa Associação, afinal, já não é só dum pequeno grupo. Simbolicamente é de Portugal inteiro, todo ele desalinhado relativamente a este caminho para o abismo.

“Todas as família felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Estou a citar de cabeça mas parece-me não me ter desviado muito duma das mais consagradas frases da literatura universal com que o imortal Tolstoi começou “Anna Karenina”.

Também a família portuguesa é infeliz neste momento. À sua maneira, é certo, não como os gregos, não como os irlandeses ou os espanhóis.

Os islandeses deixaram-se disso e sacudiram a infelicidade. À sua maneira.

Teremos a mesma coragem para o fazer? Creio que não há outra hipótese.

4 Comments

  1. Claro que gostei. Está bem observado. Ma eu gostaria que houvesse muito mais alinhamento nestes tempos que correm. A união faz a força.

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