POESIA AO AMANHECER – 65 – por Manuel Simões

Edoardo Sanguineti – Itália

( 1930  – 2010  )

REISEBILDER, 34

ao funcionário da alfândega em mini-saia, que me escolheu, com seus olhos

de sibila

e de pomba, numa fila interminável de viajantes em trânsito, disse

toda a verdade, apertado num vão-confessional de madeira

prensada:

disse que tenho um filho que estuda russo e alemão:

que “Bonjour les amis”, curso de língua francesa em 4 volumes, era

para a minha mulher.

estava disposto a conceder mais: sabia que foi Rosa de

Luxemburgo

a lançar a palavra d’ordem “socialismo ou barbárie”: e podia

tirar disso um madrigal estrepitoso:

mas suava, procurando nos bolsos,

buscando em vão a conta do Operncafé*: e depois fizeste irrupção

tu, trazendo atrás também as crianças, maravilhosas e maravilhadas:

(apertavamos-te com os mesmos gestos duros, eu e aquela minha beatriz

democrática fardada):

mas, para mim, o irreparável estava já consumado, ali

na fronteira entre as duas Berlim, quarentão seduzido por um polícia.

*O café do Teatro da Ópera de Berlim Leste

(de “Wirrwarr”, versão de Manuel Simões)

Teórico da neo-vanguarda a partir da publicação da antologia “I Novissimi” (1961). Estreia-se com “Laborintus” (1956), destacando-se a seguir: “Wirrwarr” (1972),  “Catamerone” (1974), “Scartabello” (1981), “Novissimum Testamentum” (1986), “Corollario” (1997). A sua poesia encontra-se reunida em “Mikrokosmos. Poesie 1951-2004” (2004).

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