
Como já aqui foi referido, Ana Teresa Pereira ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) com o romance O Lago
Sónia caminhava rapidamente, apertando contra si a gola do casaco azul-escuro. Na rua mal iluminada os transeuntes eram raros e o nevoeiro dava um aspecto irreal aos edifícios, escondendo os últimos andares dos mais altos.
Meses atrás, Sónia deixara a sua cidadezuiha, uma cidadea velha e um cachorro que ainda a procurava pelos cantos. Agora vivia na cidade grande e cinzenta. Trabalhava num bar de onde saía todas as noites às onze horas.
Àquela hora havia uma ou outra espelunca ainda aberta, o que não tinha nada de surpreendente. O que a intrigava era a livraria, a porta aberta da livraria.
Era uma porta estreita, ao lado de uma montra onde se amontoavam livros em segunda mão, numa grande desordem. Do outro lado uma sala comprida e escura, enormes prateleiras que cobriam por inteiro as paredes, velhos livros e ninguém. Nunca vira uma pessoa lá dentro. Cliente ou empregado. Aquela porta aberta, a penumbra da sala, de que não se via o fundo, lembravam vagamente uma armadilha.
Desde que começara a passar por aquela rua, uma semana antes, todas as noites se demorava uns minutos a ver a montra, tentando ler os títulos dos livros. E sentia um vago desejo de entrar.
Naquela noite, ao aproximar-se, viu como sempre a ténue luz acesa. A porta estava aberta e no interior algo esperava entre os livros.
Quase sem dar-se conta, encontrou-se lá dentro. Teve a sensação estranha de estar num mundo diferente. Olhou para trás e a rua deserta pareceu-lhe inacessível do outro lado da porta. Como se nunca mais pudesse voltar.
Começou a mexer nos livros e depressa se esqueceu do que a rodeava. Quando o homem surgiu entre as estantes, duplicado pela sua sombra gigantesca, quase gritou.
Ele era alto e forte, o rosto muito belo e desumano, os olhos de animal ou de deus. As mãos enormes e cobertas de pêlos negros.
— Estava à tua espera — disse com voz fria.
Sónia comprou um livro, um livro velho e escrito numa língua desconhecida e voltou para o seu quarto alugado, envolta numa atmosfera de irrealidade.
O dia seguinte foi um verdadeiro pesadelo. Quando saiu do bar fazia mais frio do que de costume. Ao descer a rua, onde não se via ninguém, percebeu que o nevoeiro estava mais denso do que nunca.
Parou a ver a montra. A livraria estava deserta como sempre. Antes que percebesse o que estava a acontecer, tinha entrado.
Quanto mais se afastava da porta, mais fraca era a luz. A estreita sala parecia interminável. Ao fundo, onde a escuridão era quase total, um homem, sentado numa poltrona, fumava um cigarro.
Ele disse-lhe que a esperava.
Foi na quinta noite que a fez subir pela escada de caracol, por trás das últimas estantes, e a levou para o seu quarto. Sónia viu as suas mãos, cobertas de pêlos negros, começarem a desabotoar-lhe a blusa.
Com uma mistura de horror e desejo, Sónia entregou-se ao monstro.
Dois dias depois deixou o emprego e trouxe a sua mala, não muito pesada, para a livraria. Atravessou a porta como uma sonâmbula, passou por entre as fileiras de livros e subiu as escadas.
Nenhuma das janelas da casa dava para a rua. Todas davam para um pátio interno, onde nunca se via ninguém e peças de roupa secavam em pedaços de cordel.
Vivia numa espécie de indiferença longos dias sonolentos e, quando a noite deslizava pela janela, um arrepio de horror insinuava-se-lhe pelo corpo. Pousava o livro na cadeira e fixava a porta, numa espera dolorosa. Então ouvia os passos dele na escada e o seu vulto surgia no umbral, monstruoso e familiar. Corria a refugiar-se-lhe nos braços.
As noites eram intermináveis e insones, ficava a olhar o belo rosto adormecido, as paredes sombrias do quarto, o tecto tão próximo e as janelas que não davam para lugar algum.
De vez em quando descia à livraria, escolhia livros, olhava com receio o mundo do outro lado da porta. Enquanto lá estava, nunca viu entrar um cliente. Ele ficava sentado, o cigarro aceso, adormecido e distante.
Um dia percebeu que estava grávida. Algo desconhecido crescia dentro de si, alimentava-se das suas entranhas, devorava-a lentamente.
Foram meses que passaram depressa de mais, na penumbra dos quartos, entre as estantes e os livros, nos braços do homem, no latejar do corpo estranho dentro de si.
Nasceu ali mesmo, na sua cama, numa noite de tempestade, pela primeira vez ela quis morrer.
Ficou a vê-lo crescer cá fora. Sugava-lhe o peito, seu outro dono, os seus olhos estranhos seguiam-na pelo quarto, o rosto ia ficando mais belo, mais irreal, mais assustador.
Um dia, algum tempo depois, Sónia despertou tarde, com o bebé a chorar. Quando se levantou, olhou-se ao espelho. O seu rosto estava irreconhecível, como se a beleza que dormira nele durante tantos anos tivesse vindo ao de cima e ela se tivesse transformado numa outra mulher. Com algo de sobrenatural. De monstro.
O casaco azul-escuro ainda estava no armário. O bebé chorava enquanto Sónia descia as escadas, atravessava a loja a correr e, com uma sensação de irrealidade, saía para a rua. Continuou a correr pela rua abaixo, respirando a plenos pulmões.
O homem sentado na cadeira, no fundo da livraria, continuou a fumar. Como se nada tivesse acontecido.
Seis meses depois. Uma cidade a muitos quilómetros de distância. Sónia olhava-se ao espelho. Estava mais magra do que alguma vez fora, o corpo quase sem formas, como o de um adolescente. Cortara o cabelo curto e os olhos verdes estavam de novo tranquilos.
Trabalhava numa galeria de arte e ganhava bem. Vivia numa casa pequena com um jardim nas traseiras, onde passava uma grande parte do seu tempo livre, lendo velhos livros de poemas que comprava num alfarrabista. Por vezes encontrava nas margens anotações estranhas, enigmáticas, que a deixavam um pouco assustada.
Mas a sua imagem no espelho parecia-se novamente com ela mesma. E tinha um gatinho preto que a esperava na janela quando chegava a casa ao fim da tarde.
E não tinha pesadelos.
Vestiu a gabardina e encheu um pires de leite para o gato. Apetecia-lhe passear um pouco, antes de dormir.
Lá fora caía uma chuva miudinha.
Sônia caminhava sem pressa. Atravessou uma ponte e encontrou-se na parte velha da cidade. Um labirinto de ruelas desconhecidas, mal iluminadas.
Parou a ver a montra de uma ourivesaria. Chamou-lhe a atenção um pequeno anel com uma pedra azul. Lembrou-se vagamente de uma história que lera alguns anos atrás.
Como se estivesse num verdadeiro labirinto, foi seguindo pelas vielas que surgiam à esquerda. Ao fim de algum tempo, percebeu que se tinha perdido.
E então reconheceu a rua.
Dominou-a uma sensação de irrealidade. O nevoeiro deslizava tranquilo e sentiu frio.
Era impossível. Não podia ser aquela rua. Estava a muitos quilómetros. Muitos…
Então compreendeu que nem a distância a podia salvar.
Ali à frente, a pálida luz acesa, a porta aberta da livraria. A rua deserta, o nevoeiro.
Sónia riu alto.
Ao cruzar o umbral, ouviu o bebé chorando, à distância, no andar de cima. Caminhou lentamente, entre as estantes. Ao fundo, nas trevas, brilhava a chama de um cigarro.
Ele esperava-a.
(in Contos de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água)
