EM VIAGEM PELA TURQUIA – 31 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Voltando às atrocidades já referidas contra gregos e arménios, citemos de novo Niall Ferguson (o. c., págs. 154/5):

 Quando os desesperados refugiados chegaram ao cais viram uma flotilha de navios estrangeiros no ancoradouro ¾ mais de vinte couraçados britânicos, franceses e americanos. Deve-lhes ter parecido que estavam diante da sua salvação. Contudo, as forças ocidentais não fizeram praticamente nada (…). Kemal não via necessidade de massacrar todos os gregos em Esmirna, embora um número substancial de homens aptos tenha sido levado para o interior, sofrendo agressões da parte dos aldeãos turcos, pelo caminho. O general limitou-se a dar ao governo grego um prazo – até 1 de Outubro – para os evacuar a todos. Nos finais de 1923, já mais de 1,2 milhões de gregos e de 100 mil arménios tinham sido retirados à força dos seus lares ancestrais. Os Gregos pagaram na mesma moeda. Em 1915, cerca de 60% da população da Trácia Ocidental eram muçulmanos e 29% macedónios. Em 1924, já esses números haviam tombado, respectivamente, para 28% e 0%, sendo substituídos por gregos.

 Se podemos lamentar a devastação sofrida nesta guerra pela Anatólia e as suas populações, também devemos lembrar o que escreve Andrew Mango, na obra que temos vindo a citar: «Mas a Mustafá Kemal a devastação da Anatólia ofereceu a oportunidade de realizar as suas ambições para o seu país e para ele próprio. A Turquia tinha de ser reconstruída. Ele estava determinado a ser o seu arquitecto.»(pág. 347).

    

Ao acordo conseguido em Mudanya seguir-se-ia uma longa negociação, iniciada em 21 de Novembro de 1922 e concluída apenas em 24 de Julho de 1923, com algumas interrupções pelo meio, com a assinatura do Tratado de Lausanne, que celebrou, por fim, a paz entre os beligerantes.

Este Tratado de paz foi assinado naquela cidade suíça entre a Turquia, de um lado, e a França, o Reino Unido, a Itália, o Japão, a Grécia, a Roménia, o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, do outro. A nova República da Turquia via-se reconhecida internacionalmente, em substituição do antigo Império Otomano, assim como conseguia a anulação do Tratado de Sèvres, que foi, lembremos, assinado pelo governo otomano e que a Turquia não havia ratificado. Mustafá Kemal e o seu movimento nacional não podiam aceitar uma Arménia independente no Nordeste da actual Turquia, assim como não poderiam aceitar um Curdistão autónomo no Sudeste, nem sequer a Grécia a integrar no seu território a Trácia Oriental e a região de Esmirna (Izmir).

Com a assinatura do Tratado de Lausanne, Mustafá Kemal via reconhecido o seu regime instalado em Ancara, assim como as fronteiras da nova Turquia, que passavam a incluir no seu território toda a Anatólia e a Trácia Oriental, conseguindo também que os Aliados renunciassem a uma independência da Arménia e à autonomia do Curdistão; em contrapartida, os Aliados viam a Turquia renunciar aos territórios árabes e europeus, do antigo Império Otomano, a Chipre, que ficava para os britânicos, e ao Dodecaneso, então nas mãos dos italianos. Os controlos sobre as finanças e as forças armadas turcas acabaram, abrindo-se ao comércio os estreitos de Dardanelos e do Bósforo e o Mar de Mármara, definitivamente turcos.

 Entretanto, em 23 de Outubro de 1921, tinha sido assinado em Kars um tratado entre a Turquia e representantes da Arménia, do Azerbeijão e da Geórgia, repúblicas integradas na União Soviética, estabelecendo as actuais fronteiras entre a Turquia e os estados do Cáucaso do Sul; este tratado foi ratificado em Yeravan em 11 de Setembro de 1922.

 

Mustafá Kemal, com membros da ordem Mevlana, em 1923,antes de se tornar

 ilegal e de ter sido transformada no Museu Mevlana (fonte Wikipédia)

 

Libertando o país das forças da Entente – convindo lembrar que já sem a Rússia, por força da Revolução de 1917-, em 29 de Outubro de 1923 Mustafá Kemal faz com que seja proclamada a República, ascendendo à Presidência, que exerce de 29 de Outubro de 1923 a 10 de Novembro de 1938 (data do seu falecimento, com 57 anos, no Palácio Dolmabahçe, em Istambul), fazendo aprovar uma nova constituição em 1924, exercendo o poder como o único senhor do país, numa verdadeira ditadura mas com uma determinação notável, que lhe vai permitir transformar, como admirador confesso do Iluminismo, a Turquia num estado moderno, abolindo o califado, ocidentalizado, separando o Estado da Igreja, abolindo as ordens religiosas e revogando a disposição constitucional que fazia do islamismo a religião oficial do Estado, laicizando assim não só o Governo mas também a Educação, introduzindo o vestuário ocidental, proibindo o uso do fez e do véu, dando direitos civis às mulheres (que ainda hoje o recordam, como pudemos testemunhar) uma verdadeira revolução num estado muçulmano, adoptando o sistema métrico, o alfabeto latino e o calendário gregoriano, sem esquecer a promoção do desenvolvimento das artes, das ciências, da indústria e da agricultura, entre muitas outras medidas, ganhando direito ao título de Atatürk, que significa o «pai de todos os Turcos», em 1934, quando os apelidos foram legalmente adoptados, ou seja, quando impôs o uso de um nome de família, até aí inexistente.

Mustafá Kemal Atatürk e Latife Uşaklıgil, sua esposa,

durante uma viagem – 1923 (fonte Wikipédia)

(Continua)

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