Maurizio Cucchi – Itália
( 1945 – )
FIDELIDADE
Confio-te, antes da total
confusão, as suas pacíficas ocupações,
no odioso desalinho,
viscoso impudor do Verão.
Assiduamente vigilante, selvagem,
ou talvez, mais ligeiros, inobservados, os dois
no sereno dedicar-se ao guarda-sol,
segurá-lo, plantá-lo, gozar
das várias cores, descansar.
Reflecte: não outra podia ser a escolha,
a minha promessa eterna, irreversível:
esvaziada fidelidade.
A gíria familiar, inutilmente imitados
os pés do meu pai em espátula, as brancas,
pouco viris, ossudas mãos de um empregado ou de um médico,
os dois graus sociais de automóvel:
o Fiat 500, o Mil e cem…
(de “Le meraviglie dell’acqua”, versão de Manuel Simões)
A estreia poética advém com o poema fragmentário “Il disperso” (1976). Seguem-se, entre outras obras: “Lemeraviglie dell’acqua” (1980), “Donna del gioco” (1987), “Poesia della fonte” (1993), “L’ultimo viaggio di Glenn” (1999), “Per un secondo o un secolo” (2003), “Il rosso e l’azzurro” (2006).
Paolo Ruffilli – Itália
( 1949 – )
A ALEGRIA E O LUTO
O acender-se e
o apagar-se
(por acaso?) da vida
o traço luminoso
o rasto que deixa
atrás de si
aquilo que foi
amado ou não amado
contudo desconhecido
a alegria e o luto:
precipitado, tudo,
no vaso cego
entre os braços do escuro.
A marca esbatida
e entretanto reflorida
de cada coisa.
A sombra e o odor
já nem sequer a cor
o pensamento pensado
da rosa.
(de “La gioia e il lutto”, trad. de Manuel Simões)
Da sua obra poética destacam-se: “Piccola colazione” (1987), “Diario di Normandia” (1990), “Camera oscura” (1992), “Nuvole” (1995), “La gioia e il lutto” (2001). Ocupa-se do projecto de pôr em rede a poesia italiana contemporânea. Alguns poemas seus foram traduzidos para português por Maria do Rosário Pedreira e por Manuel Simões.
Valerio Magrelli – Itália
( 1957 – )
“PREFIRO VIR DO SILÊNCIO”
Prefiro vir do silêncio
para falar. Preparar a palavra
com cuidado, para que chegue à sua margem
deslizando submissa como um barco,
enquanto o rasto do pensamento
lhe desenha a curva.
A escrita é uma morte serena:
o mundo tornado luminoso alarga-se
e queima para sempre um seu ângulo.
(de “Poesie, 1980-1992”, versãode Manuel Simões)
Obra poética: “Ora serrata retinae” (1980), “Nature e venature” (1987), “Esercizi di tiptologia” (1992), depois reunidos em “Poesie 1980-1992 e altre poesie” (1996). Publicou ainda “Didascalie per la lettura di un giornale” (1999).
POESIA AO AMANHECER
Iniciamos hoje uma antologia de poetas espanhóis do após-guerra, servindo-nos, para isso, do volume “Poesia Espanhola do Após-Guerra, selecção e tradução de Egito Gonçalves (Lisboa, Portugália, s/d).
Gabriel Celaya – Espanha
( 1911 – 1991 )
A RAFAEL MELERO
É proibido chorar.
É proibido ir com os rios para o mar
onde tudo é igual.
É proibido sorrir
de modo subtil, sem nada dizer,
dizendo que tanto faz o sim ou não.
É proibido violentar
e, ainda que armados de razão, atacar.
É proibido forçar.
É proibido falar do fim
quando tudo é no entanto um: ai! não aí,
e um flutuante ver chegar.
É proibido o gesto
de consciência pessoal, piscar de olhos da liberdade,
porque existem os outros.
É proibido morrer
por cultura, cepticismo, ou porque assim
se descansa de existir.
É proibida a moral
das boas intenções, que, associal,
por nada dá o mais próximo.
Há que crer e viver.
Resolutos, ainda que sem ódio, decidir
o dizer sim claramente
Vem para mais perto, mais perto.
Não me perguntes o que é claro. Também o vês chegar
na unidade dos homens – tu por mim.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Hernani (País Basco). Publicou vários livros de ensaio sobre poesia. Da sua extensa obra poética, salientam-se aqui: “Movimientos elementales” (1947), “Objectos poéticos” (1948), “Deriva” (1950), “Lo demás es silencio” (1952), “Cantos iberos” (1955), “De claro en claro” (1956), “El corazón en su sitio” (1959, Venezuela), “Episodios Nacionales” (1962).
Blas de Otero – Espanha
( 1916 – 1979 )
PEÇO A PAZ E A PALABRA
Peço a paz e a palavra.
Escrevo
em defesa do reino
do homem e da sua justiça. Peço
a paz
e a palavra. Disse
“Silêncio”,
“Sombra”, “Vazio”,
etc.
Digo
“Do homem e da sua justiça”,
“Oceano Pacífico”,
o que me deixarem.
Peço
a paz e a palavra.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Bilbao. Obra poética: “Cántico espiritual” (1942), “Angel fieramente humano” (1950), “Redoble de conciencia” (1951), “Pido la paz y la palabra” (1955), “Ancia” (1958).
Leopoldo de Luis – Espanha
( 1918 – 2005 )
GENTES DO ENTARDECER
Gentes do entardecer, rosto de crepúsculo;
acostumai-vos a olhar as asas
da luz. Um belo dia
a manhã romperá.
Línguas de pedra, ouvidos de silêncio:
preparai para a fala
vossa mudez, vossa falta de ouvido. Um dia
a palavra soará.
Ilhas de solidão, pedaços de mágoa:
abri as diminutas pátrias
de cada um. Pode ser que um dia
se unam as terras separadas.
Corpos de ignomínia e sombra: nunca
vos esqueçais de florescer dentro da alma.
Talvez um dia, talvez um dia
possais dizer “agora” à esperança.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Córdoba. Crítico de poesia. Obra poética: “Sonetos de Ulisses y de Calipso” (1944), “Alba del hijo” (1946), “Huésped de un tiempo sombrio” (1948), “Los imposibles pájaros” (1949), “Elegia en otoño” (1952), “El extraño” (1955), “Juego limpio” (1961).
Carlos Bousoño – Espanha
( 1923 – )
DE LONGE
Passa a juventude, passa a vida,
passa o amor, a morte também passa,
o vento, a amargura que trespassa
a pátria densa, adormecida, imóvel.
Adormecida, em sonho, para sempre, esquece.
Mortos e vivos estão na mesma massa;
dormem igual destino, ventura escassa.
Pátria, profundidade, perdida pedra.
Perdida pedra, fundida, vivos, mortos.
Espanha inteira já dorme a sua história.
Os campos tristes e os céus bem hirtos.
Está no papel escrita a tua glória:
querer edificar sobre os desertos;
aspirar à luz mais ilusória.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Boal (Astúrias). Publicou uma “Teoria da Expressão Poética”. Da sua obra, destacam-se os livros de poesia: “Subida al amor” (1945), “Primavera de la muerte” (1946), “Hacia otra luz” (1950), “Noche del sentido” (1957). Reuniu a sua obra poética em “Primavera de la muerte. Poesías Completas 1945-1998” (1998).
Gabino Alejandro Carriedo – Espanha
( 1923 – 1981 )
TEORIA DA AGRICULTURA
Surge o lavrador com a sua amarela carga de pães
já semi-cosidos.
Vem pelo caminho o lavrador meio adormecido
com a pesada carga dos anos,
saúda o próximo com a calejada mão
e contempla, que pena, a terra tão bonita,
com a sua mancha de sol, e o silêncio, e os primeiros cantos dos grilos
quando os pássaros começaram a dormir,
que pena, com o difícil que está a vida
pensa que não compensa moer os ossos,
fazer-se velho e sentencioso, ganhar rugas
enquanto se ouve, idêntico, o toque do sino,
enquanto o filho salta da lavoura ao quartel
e vive-versa.
[…]
Pelo adormecido caminho vem o lavrador
e olha as formigas, que pena, tão minúsculas,
tão esquecidas que qualquer as pisa
sem que sinta, por isso, violados
os Direitos do Homem.
Vem para ceder ao filho a ferramenta.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Palencia. Foi co-director das revistas “Pájaro de paja” e “Poesía de España”. Obra poética: “Poema de la condenación de Castilla” (1946), “Del mar, el menos” (1952), “Alas cortadas” (1959), El corazón en un puño” (1961).
José Hierro – Espanha
(1922 – 2002)
REPORTAGEM (fragmento)
Daqui, desta prisão, poderia
ver-se o mar, seguir-se o giro
das gaivotas, tomar o pulso
ao bater do tempo vivo.
Esta prisão é como
uma praia: nela está tudo
adormecido. As ondas quebram
quase a seus pés. O Verão,
a Primavera, o Inverno,
o Outono, são caminhos
exteriores que outros andam:
coisas sem vigência, símbolos
mutáveis do tempo. (O tempo
aqui não tem sentido.)
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Madrid. Obra poética: “Tierra sin nosotros” (1947), “Alegría” (1947), “Con las piedras, con el viento” (1950), “Estatuas yacentes” (1953), “Cuando sé de mi” (1957), “Poesía del momento” (1957).
José Maria Valverde- Espanha
( 1926 – 1996 )
A MANHÃ (fragmento)
Na manhã, no seu fino e molhado
ar, sobes e voltas para casa
entre os falatórios e as tarefas.
Coroam-te os ruídos do mercado
e o do carpinteiro que à porta
põe o pote da cola e lá trabalha;
o triciclo da carga vai levando
a boa nova, porque tu aqui voltas
com teu cesto, carregada de milagres;
acompanha-te o leite, como criança
que gatinha e rola e se mancha;
o queijo, denso espaço de pureza
concreta e perfurante; e o fulgor
antigo do azeite, a verdura
ainda viva, surpreendida no sono,
as batatas mineiras e pesadas
da tendência para o solo, os tomates
de fresco calafrio; os pedaços
cruéis da carne e sobretudo
o nobre cheiro do pão e seu rugoso
contacto de ferramenta.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Valencia de Alcantara (Cáceres). Da sua obra poética assinalam-se: “Hombre de Dios” (1947), “La espera” (1949), “Versos del domingo” (1954), “La conquista de este mundo” (1960), “Ser de palabra” (1976), “Poesía, 1945-1990” (1990).
José Manuel Caballero Bonald – Espanha
( 1926 – )
O CONTORNO DA HISTÓRIA
O que com mão incerta traça
do coração o próprio emblema
sobre o pó, também ali desenha
o vazio da sua história, sinal
de proféticos limites que se expandem
entre o cascalho da escravidão.
Glorioso é o instante
em que o amor confunde as suas fronteiras
com a vida; limite de onde o homem
circunda o fio da sua liberdade
com fugazes silhuetas opressoras,
imagem caída sobre um pouco
de terra, última forma inerte
desprendida do tempo, carnal
contorno esquivo da história.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Jerez de la Frontera. Estudioso do folclore espanhol, publicou “El cante jondo” e “El baile andaluz”. Obra poética: “Poesía” (1948), “Las adivinaciones (1948), “Memorias de poco tiempo” (1954), “Anteo” (1956), “Las horas muertas (1959), “El papel del coro” (1962).
Angel Crespo – Espanha
( 1926 – 1995 )
O PÃO MORENO
O pão moreno sabe a terra negra
sob a qual há mortos submersos,
sabe um pouco a pesebre
e sabe à boca de animal inteiro.
[…]
Quando se lavra a terra
tem-se na algibeira um pão moreno
e depois, o comê-lo,
sabe um pouco a suor, sabe a raízes
e crepita entre os dentes.
Ao erguer da cama, quando o sol levanta,
come-se pão moreno
e então sabe a dia
e a mulher sabe ao pão pela manhã.
Espesso, endurecido pela cosedura,
com sabor às mais íntimas palavras,
com o calor das coisas que se amam
e o odor da terra quando chove,
comemos pão moreno em Alcolea
sem nos olharmos, sentados junto ao fogo.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Ciudad Real. Traduziu “Poemas de Alberto Caeiro” (1957) e organizou uma “Antología de la nueva poesía portuguesa” (1961). Estudioso das literaturas portuguesa e brasileira, é também autor de uma biografia de Fernando Pessoa. Da sua extensa obra poética, assinalam-se: “Una lengua emerge” (1950), “La pintura” (1955), “Todo está vivo” (1956) “Puerta clavada” (1961), “No sé como decirlo” (1965), “Donde no crece el aire” (1981), “Iniciación a la sombra” (1996).
Carlos Barral – Espanha
( 1928 – 1989)
ENTRE TEMPOS (fragmento)
Um pouco mais. Um pouco mais de tempo.
Partículas de mundo mais velozes
desbordam do seu cálculo.
Poderia
somar o que não existe, como conta
o remador suas remadas, uma e outra,
sem saber quantas faltam, sem se voltar
para ver a ponte imóvel, meditando
os pássaros que mudam de postura
com as asas abertas sobre as bóias…
[…]
Fomos uma espécie?
Séculos de minério,
de subterrânea obstinação foram
diferentes a princípio, mais comuns
do que azul foi o ar que enterravam?…
Ou foi sempre este vidro
a mesma pausa imemorial que agora
sólida entre memórias nos divide?
De pele a pele o tempo heterogéneo
alonga a sua galeria ameaçada.
Edificamos sobre fendas.
Ou que cidade
fundamos instantânea?
(traduçãode Egito Gonçalves)
Nasceu em Barcelona, onde dirigiu uma empresa editorial. Alguns títulos da sua obra poética: “Las águas reiteradas” (1952), “Metropolitano” (1957), Diecinueve figuras de mi historia civil” (1962).
Jesús López Pacheco – Espanha
( 1930 – 1997)
PARA ANTONIO MACHADO
Peguei no papel e apoiei-o
sobre um livro de versos de Machado.
– Machado, meu amigo,
peço que me perdoes
ter-te comigo na cadeia,
mas pareces-te tanto com um rio,
tuas canções são tão de água,
és mais velho que eu e sabes tanto
do amor e do frio,
do medo e do espanto,
a tudo o que existe amaste tanto
e partiste tão cansado…
Além disso é tão triste
estar na prisão só e sem Machado.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Madrid. Da sua obra poética sublinhamos: “Dejad crecer este silencio” (1953), “Pongo la mano sobre España” (1961), “Canciones del amor proibido” (1962), “Mi corazón se llama Cudillero” (1962), “La hoja de parra” (1973, 2ª ed. 1997), “Asilo poético: poemas escritos en Canadá” (1992).
Claudio Rodríguez – Espanha
( 1934 – 1999 )
ALTO JORNAL
Ditoso é aquele que um dia sai humilde
e anda pelas ruas como em tantos
outros dias da vida e nada espera
e de súbito, que é isto?, olha ao alto
e vê, põe o ouvido ao mundo e ouve,
anda e sente a subir entre os seus passos
o amor da terra, e continua, e abre
sua real oficina e em suas mãos,
brilha limpo o seu ofício e no-lo entrega
do coração porque ama e ao trabalho
tremendo vai, como criança que comunga
mas sem saber dentro de si, e quando
se dá conta por fim de como tudo
foi simples e após o dia ganho,
à casa volta, alegre, e sente alguém
que à sua porta bate e não é em vão.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Zamora. Da sua obra poética assinalam-se: “Don de la ebriedad” (1953), “Conjuros” (1958), “El vuelo de la celebración” (1976), “Casi una leyenda” (1991).
José Agustín Goytisolo – Espanha
( 1928 – 1999 )
A RECORDAÇÃO
Assomo ao medo, escuto
as vozes que ainda ressoam,
que sobem da terra,
gritando nomes, datas,
lugares de traição,
crimes absurdos,
e involuntariamente tremo
pela minha vida, pelo meu
pedaço de bandeira,
pela minha casa e tudo
o que fui resgatando
do monte de ruínas
que deixaste ao partir
para esse mar soturno;
lá onde permaneces
tão incrivelmente
calada…
