“Manuel Cruz relembra-nos, agora e sempre, que tudo é político” – Carlos Garcia

Com o nosso agradecimento a Carlos Garcia e a arteSONORA

O mundo ocidental perfilha o tempo de forma linear: isto dá lugar àquilo que sucede a aqueloutro. Noutras paragens, o tempo é sentido de forma circular, um eterno retorno de eventos e pessoas e acções que ocorrem de forma cíclica, repetindo um padrão que no entanto nunca se repete da mesma forma, como uma espiral que desliza feita serpente, cada vez mais para o centro. Ontem toquei um desses pontos em que os ciclos se tocam no seu padrão ascendente.

A primeira vez que tive contacto com os Ornatos Violeta foi no que penso ter sido a última edição do mítico Rock Rendez Vous (não no bar homónimo já então destruído), que decorreu no cinema Odeon. Tinha ido acompanhar uma banda de amigos, e vi cinco bacanos em palco que faziam uma cena algo jazzística, algo groovy, algo indefinida. Não ganhou a banda dos meus amigos, não ganharam os Ornatos, não sei quem ganhou. Mas ficaram-me algures no espírito. E ontem retornei a Rua da Portas de Sto Antão, desta vez não ao Odeon (que é agora uma ruína adiada como o RRV o era) mas ao Coliseu, a sala dos sonhos e das apoteoses, para pela segunda vez na minha vida assistir a um concerto ao vivo dos Ornatos Violeta. Ressuscitados! A existirem naquele muito breve período que um ser ressuscitado pode existir neste mundo antes que a experiência se torne demasiado intensa para aqueles que ainda convivem com a lei da morte.

Entre estes dois pontos do ciclo, os Ornatos ascenderam ao estatuto de A banda do cenário musical Pop Rock português nos anos 90. O monstro precisa de amigos, e muitos responderam ontem à convocatória. A sala está cheia. Não há primeira parte. Esta (e as próximas noites) destinam-se unicamente aos Ornatos, para se realizar a comunhão com algo que acabou cedo, Demasiado cedo? Difícil de dizer! As coisas acabam e começam quando tem de ser porque nunca foi de outra maneira. A função inicia-se com Para nunca mais Mentir, e prossegue com A Dama do Sinal, estabelecendo o tom da alternância entre  Monstro e Cão. Os dois álbuns. Apenas dois álbuns! Foram somente dois? Isto existiu num período tão curto das nossas vidas? Que no entanto pareceu tão longo. Como se ainda não tivesse acabado. Como se estivesse ainda a discorrer. Como a  distância entre o início de uma coisa e o fim de outra. A música prossegue. O som torna-se mais musculado com Tanque, que contém essa fabulosa entoação que deveria persistir no imaginário português pelos séculos dos séculos: “Meu mal é ver que eu vou bem!”

Manuel Cruz, o frontman! A razão de isto  funcionar? Não é a única, tanto que Pluto eFoge, foge Bandido nunca encontraram o mesmo espaço no imaginário luso que os Ornatos. O colectivo deste grupo compõe uma magnífica argamassa instrumental, mas é este homem que insufla vida na matéria. À terceira música já voou a t shirt, como se fosse preciso sentir estas canções com a pele nua. Percorre o palco do Coliseu como um felino improvável, a cheirar talvez o rastro quase desvanecido de amores antigos. Foi já há mais de uma década que estas músicas foram escritas, e será preciso reencontrar a raiva, e amargura e dor e a doçura e o amor que um dia as alimentaram. Evocações. Monstro e cão. Para de Olhar para Mim. Um Crime à Minha Porta, Mata-me outra vez, Um dia Mau. Os Sítios onde eu o Esqueço e Gato com dois Chifres são dois inéditos que interrompem por momentos o fluxo de alternância entre álbuns e são muito bem-vindos. Ouvidos uma vez, perdidos no meio de um gigantesco concerto, são as que me estão mais presentes no dia seguinte.Há-de encarnar é uma das lembranças esquecidas que não encarnaram em monstro.

E temos “Chaga”. Porque há um fim. A plateia explode. Quiçá porque haja muito de mudar o mundo sem se lembrarem de nós nos dias que correm. E que o idealismo não apaga as chagas. Que são feridas sagradas, nunca cicatrizáveis. Tal como a memória de quem um dia passou pelas nossas vidas. “Sacrificar” novo inédito, e dedicada ao Ricardo, o primeiro vocalista da banda, onde quer que ele esteja, nas palavras do próprio Manel Cruz. E é das palavras deste, de uma poesia crua e ingénua e engenhosa que se fez muito do que foram (do que são) os Ornatos. Todos sabemos do que ele fala quando ele canta, pois fala connosco,  e mesmo quando não o sabemos já o intuímos. Coisas, Débil Mental, Bigamia, Nuvem, 1 beijo=1000. Afinal muito disto faz ainda tanto sentido. Em Tempo de morrer um dos rostos na multidão pede para ascender ao palco e tocar com a banda. ” Sabes tocar? Anda!” Guitarra acústica para as mãos, o João está por um momento no Olimpo,  debaixo das luzes e da ovação. Dedica a música a uma Beatriz. E os Deuses acenam em concordância que sim senhor, é apropriado. O sentido Notícias do fundo (Meu desejo é morrer na paz do teu beijo) acaba e um ligeiro acorde de Peixe alerta a audiência para Ouvi dizer. Lembro-me de um teledisco com dois macacos que são homens que são macacos, no (na época  tão novo e tão promissor) Parque das Nações. Como nova e promissora era esta banda. Como novas e promissoras eram as nossas vidas. Lembro-me de pensar que aquilo era um presságio.  E hoje, que esse presságio está cumprido, sabe bem encerrá-lo (enterrá-lo?) com  cinco mil pessoas a cantá-lo. Seja lá quem for que em tempos lhe tenha espetado esta faca no coração, ele bem sabia que um dia lhe ouviria dizer: “E pudesse eu pagar de outra forma!” Capitão Romance traz maresia  e Mandolin mas não Gordon Gano, tal como a anterior não trouxe Victor Espadinha. Não há convidados. A noite é puramente dos Ornatos. Os convidados somos nós.

Três Encores. Três epílogos. O primeiro vibrante e apoteótico. Começa com  O.M.E.M para pôr o Coliseu a pular na máxima força, e vai mantendo a toada com Punk moda Funk, O Amor e isto, Homem de Princípios, A metros de si, terminando com o épico Tempo de nascer. Agradecimentos. A boca de palco. Novo encore. O músicos trocam de posição. Os roadies cantam com Manel Cruz enquanto realizam as suas assistências técnicas. Os amigos correm pelo palco. E mais aplausos. E mais agradecimentos. Chuva. Raquel.Devagar e Como afundar que já tinham sido ouvidas em Paredes de Coura. Uma última chamada. Manuel Cruz relembra-nos, agora e sempre, que tudo é político. E tudo é político porque tudo é comunhão, e neste ponto de final de um ciclo e de início de um outro, que não é somente o mesmo, mas diferente, não podemos existir mais sem ser na fraternidade com o outro(s) que nos rodeia. Este texto é longo, pois longo foi este concerto e longo foi este percurso. Que foi tão curto como caminhar os poucos metros que separam o Odeon do Coliseu dos Recreios. Iniciam-se agora os Dias de Fé. Que saibam durar!

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