EM VIAGEM PELA TURQUIA – 32 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Morreu em 10 de Novembro de 1938, sendo o seu corpo transladado em 1953 para o Mausoléu em Ancara, que visitámos e de que falámos atrás. (Para além das referências citadas, ver também a «Enciclopédia Verbo – Público» e «Mustafá Kemal Atatürk», in Infopédia, Porto Editora, 2003-2012).

Nos vários locais que visitámos, cidades, nas suas ruas e praças, restaurantes, hotéis, edifícios públicos, é frequente encontrarmos uma alusão ao grande herói turco, reverenciado como um ídolo intocável, sem hipótese de ver ou ouvir uma crítica por mais insignificante que seja, alusão essa que pode ser exemplificada numa simples fotografia ou numa grande estátua. A data da sua morte é dedicada à sua memória, observando-se um minuto de silêncio precisamente às 9:05, hora da sua morte, ouvindo-se de seguida as sirenes e o buzinão dos barcos, com saudações nos meios de comunicação, com os jornais a publicar, nesse dia, tudo em preto. Haverá comemoração idêntica em qualquer outro país em honra dos seus heróis?

Monumento junto ao «caravansérail seljúcida Sultanhani» (v. 3.º Dia)

 Já fizemos um pequeno resumo das suas reformas, mas a importância das mesmas e o prestígio deste herói turco, não só no seu país mas em todo o Mundo, obriga-nos a pormenorizar mais um pouco, até para que o leitor menos informado possa fazer o seu próprio juízo de valor.

 Quando a República da Turquia se formou, Mustafá Kemal tinha 42 anos, mas não deixava de ter consciência da tarefa gigantesca que tinha pela frente para impor as reformas que considerava fundamentais para o futuro da jovem República, transformando a Turquia numa nação moderna e democrática. Outra das reformas fundamentais passava pela transformação de uma nação de súbditos muçulmanos num país secular.

 Citemos de novo Niall Ferguson (o. c., pág. 148):

 Ainda antes da deflagração da Primeira Guerra Mundial, a Turquia já evoluía de império a estado-nação, inspirada pelos ensinamentos de Ziya Gökalp, o profeta de uma Turquia homogénea com uma cultura nacional uniforme (harsi millet). Em 1908, os Jovens Turcos – um grupo de intectuais como Gökalp de oficiais do exército como Ismail Enver – surgira como a força dominante na política otomana. O seu Comité de União e Progresso (CUP) visava modernizar o império, para que este não se tornasse apenas mais um subsidiário asiático do Ocidente ou sofresse uma morte lenta, com mil cortes territoriais. Em 1913, os Jovens Turcos já controlavam Constantinopla. Tal como os seus antecessores japoneses, os Jovens Turcos seguiam o modelo dos Alemães. Entre 1883 e 1895, Colmar Freiherr von den Goltz foi o conselheiro militar do Sultão, embora a sua influência se confinasse sobretudo à formação de oficiais. Em Janeiro de 1914, Otto Liman von Sanders, um outro general alemão, foi nomeado Inspector-geral do exército. Entretanto, o governo alemão tentava induzir os seus banqueiros a financiar o alargamento da linha-férrea Berlim-Constantinopla até Bagdade. A posterior decisão dos Jovens Turcos de entrar na guerra ao lado da Alemanha seguiu, mais ou menos, a lógica destas iniciativas. Por outro lado, também não era uma decisão estrategicamente irracional, dadas as promessas secretas que o governo britânico fizera para entregar os estreitos do Mar Negro à Rússia, no caso de uma rápida vitória da Entente, e os seus próprios desígnios relativamente aos campos de petróleo da Mesopotâmia.

 Apesar de toda a sua retórica modernizante, desde a sua chegada ao poder que os Jovens Turcos só sofriam revezes. A Bulgária declarara a independência e a Áustria anexara a Bosnia-Herzegovina. Os Italianos tinham ocupado a Líbia. Os Sérvios e os seus confederados tinham-nos derrotado na Primeira Guerra dos Balcãs, deixando uma pequena porção da Trácia, em torno de Adrianópolis (Edirne) como o único resquício do seu império balcã. Estas experiências agravaram a desconfiança dos Jovens Turcos pelas populações não turcas, no interior das suas fronteiras. As bem piores devastações da guerra contra o poder combinado dos impérios britânico, francês e russo transformou a desconfiança em homicídio com intenção criminosa. Nada ilustra com mais clareza que o pior momento para viver sob o domínio imperial é quando este se desmorona. No século XX esta não seria a última vez que o declínio e a queda de um império causariam mais derramamento de sangue do que a sua ascensão.

 A tarefa de Mustafá Kemal e do povo turco antevia-se ciclópica, mas o líder dos turcos soube estar à altura. Mark Mazower, em «Ditaduras do Século XX» (in «As Ditaduras Contemporâneas», Coordenação de Fernando Rosas e Pedro Aires Oliveira, Edições Colibri, 2.ª tiragem, Dezembro de 2010), escreve:

 Outro produto da guerra civil e da fragmentação imperial foi Mustafa Kemal Ataturk. A Turquia, tal como a Hungria, eram os restos deixados pelo colapso de um grande império. Tal como a Hungria, foi invadida pelos seus inimigos, e a necessidade de se defender acentuou o papel das forças armadas na política, um papel que, no caso turco, ficara evidente desde a revolução dos Jovens Turcos de 1908. Os Jovens Turcos tinham detido o poder intermitentemente entre essa data e 1918, como um triunvirato de dirigentes, mais do que com um único ditador. No interim, Ataturk surgiu como o líder de um novo exército turco.

Ao contrário de Horthy, Ataturk não era um legitimista. Em 1921, combinava os cargos de Presidente da Grande Assembleia Nacional e de Comandante-em-Chefe e gozava de poderes de acordo com os quais “as ordens que dou serão lei”. Em 1923, acabou com os cargos de sultão e califa e transformou a Turquia numa república. De então até à sua morte, em 1938, Ataturk governou o país como ditador de um Estado de partido único através do seu Partido do Povo Republicano. Foi nomeado seu chefe em 1927 e após a sua morte seria declarado “Eterno Líder” e “Líder Nacional Imutável”. As experiências com um sistema multipartidário foram temporárias, rigidamente enquadradas e sempre dentro das fronteiras do secularismo. Apenas com o fim da Segunda Guerra Mundial se assistiu a uma liberalização do sistema político, embora o poder do exército tenha permanecido constitucionalmente salvaguardado.

Hoje, como sabemos, o poder do exército está submetido ao poder político. Mas não nos adiantemos e voltemos à acção de Mustafá Kemal Atatürk.

A completa independência do país foi sempre para ele inegociável, com a certeza de que não a conseguiria apenas com recurso à força:

…por independência completa, queremos obviamente dizer independência económica, financeira, jurídica, militar e cultural completa, e liberdade em todos os assuntos. Ser privado de independência em qualquer um destes itens equivale a privar a nação e o país de toda a sua independência.(Nonneman, Gerd; Analyzing Middle East foreign policies and the relationship with Europe, 2005. Routledge, p. 204 – fonte Wikipédia).

(Continua)

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