Um Café na Internet
– Ó Joshua Benoliel: o jornalista Rocha Martins disse que tu és o Rei dos Fotógrafos. Conhece-te bem, até fez o prefácio do teu Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, aquele com fotografias que vão de 1903 a 1918.
– Eu não sou rei de nada.
– Mas conviveste com reis.
– Também com o povo humilde. Foquei ardinas de pé descalço e varinas a trabalhar, lembras-te?
– E sempre com aquele monstro ao colo…
– Que monstro? A máquina fotográfica para montar no tripé?
– Isso mesmo.
– Repara que os negativos são chapas de vidro…
– Chapas de vidro? De que tamanho?
– 9 por 12 centímetros e cobertas com gelatino-brometo. Elas é que tornam mais pesada a minha máquina. Mas eu adoro-a, é o meu segundo coração, leva-me daqui para o mundo inteiro.
– Quando é que começaste a fotografar?
– Eu era despachante na Alfândega mas em 1898, como amador, consegui publicar as minhas primeiras fotografias na revista Tiro Civil.
– E quando é que passaste a profissional?
– Em 1903 entrei na revista Ilustração Portuguesa, suplemento do jornal diário O Século.
– Bem me lembro do teu pregão “é para O Século, é para o Século!”, e nas ruas toda a gente queria posar para ti.
– Toda a gente estava a pensar no jornal O Século, mas eu queria era fixar o instante para o nosso século…
– Boa! Joshua, cativam-me as tuas fotografias. Um dia ouvi-te dizer: “Mais vale um bom cliché do que um ótimo artigo”. Estou certo?
– Ouviste bem.

