SALAZAR E A I REPÚBLICA – 9 – por José Brandão

Salazar 1928

Salazar jornalista

O último ano do seminário, 1908, será o mais vincado na viragem do jovem Salazar para a intervenção política nomeadamente como jornalista católico e anti-republicano.

Durante os oito anos de seminário (1900 a 1908) não só se talha o seu carácter, como este começa a evidenciar-se nos meios católicos e conservadores da região viseense.

Face à vaga republicana e anticlerical que invade os centros urbanos e se propaga pelas folhas e nos comícios republicanistas, Salazar decide entrar em contacto com o director de A Folha, José de Almeida Correia, que logo aceita a colaboração de Salazar naquele bissemanário católico visiense e torna-se, ainda antes de fazer 19 anos, seu colaborador.

Em 2 de Abril de 1908, começa a colaboração regular em A Folha com o artigo «Vergonhoso Contraste», no qual criticava a indiferença dos católicos perante a gravidade do momento em relação à Igreja e à Nação e concluía por se insurgir contra o facto de os republicanos não quererem receber «gratuitamente» uma publicação católica enquanto «o católico e fiel monárquico paga e ajuda com o seu dinheiro o jornal que lhe ataca a crença, e vai apressando a queda da monarquia, a quem serve». E então António de Oliveira Salazar entra decididamente numa activa produção de jornalismo de combate, assinando por SOA. (Tudo indica que sejam as iniciais do nome António Oliveira Salazar, de trás para a frente).

Ainda em Abril surgem outros artigos em defesa da Igreja: «Jesus», em 16 de Abril, e três dias depois, a 19, publicava com o título de«Ressurrexit»novo artigo.

Depois, SOA faz uma pausa breve. Mas a 3 de Maio escreve sobre o «Mês de Maria». A 14 de Maio, «A Uma Rosa», artigo este em forma de poesia em que enaltecia o culto pelas flores e o amor pela imagem da Mãe. Eram versos mas não era poesia. Talvez consciente das suas limitações, Salazar regressa à prosa. E em 4 de Junho publica mais um artigo: «Conversando…». Constituía um apelo e um incitamento aos estudantes, para que tivessem fé, e fossem bons católicos: para que repudiassem a impiedade e desconfiassem de algumas atitudes dos republicanos.

Depois, nova e curta pausa neste apostolado jornalístico, mas em 20 de Agosto de 1908 o então antigo seminarista escreve um último artigo desta série. Sobre «A Mãe de Jesus», e partindo de um verso de Guilherme Braga, compõe um hino o qual constituía um hino de louvor à Virgem. E com este artigo encerra a série.

No casarão do seminário, entretanto, a vida seguira o seu curso. Em Maio, chegava António de Oliveira Salazar ao termo do seu mandato de um ano como presidente da Congregação do seminário e em reunião daquele mês, a 27, depunha as suas insígnias nas mãos dos novos eleitos. Aproximava-se também o fim do último ano teológico, e, em Julho de 1908, António de Oliveira Salazar, com 19 anos, termina com 16 valores e distinção o curso de Teologia no seminário e toma ordens menores.

Completados os estudos, permanece em Viseu por mais dois anos.

Em Outubro convite do cónego António Barreiros, inicia funções de professor e prefeito no Colégio da Via Sacra, em Viseu, fundado havia pouco. António de Oliveira Salazar foi ganhar, na qualidade de prefeito, 100 escudos anuais.

Situado quase na periferia de Viseu, numa elevação, o colégio domina toda a cidade, e na distância avista-se a serrania do Caramulo. O objectivo do colégio, nos primeiros anos de existência, era o de acolher os jovens da região que se deslocavam para a cidade de Viseu para cursarem o liceu. Para além de albergue, a instituição pretendia dar aos jovens um complemento educacional a nível da formação moral, cívica, física e artística. Desde os primeiros anos, a escola edita a revista Ecos da Via Sacra, com o qual colaborou António de Oliveira Salazar, perfeito da instituição. Salazar tinha um quarto só para si, na esquina norte do edifício. Aí permaneceu durante 2 anos, enquanto repetia no Liceu Alves Martins os exames do curso secundário, que terminará em Julho de 1910 com 17 valores. Neste período proferiu conferências e colaborou nos jornais católicos viseenses A Folha e Ecos da Via Sacra.

Com o Hino À Bandeira, Salazar começa a colaborar na publicação do Colégio, Ecos da Via Sacra. A bandeira que louva como bandeira sagrada/bandeira de Portugal é a azul e branca da monarquia:

 Salvé, bandeira sagrada,

Bandeira de Portugal

No cimo do monte agreste,

No fundo do ameno val.

Ergue-te bandeira santa,

Bandeira de Portugal!

 

Salvé, símbolo sagrado

Da Pátria que é a nossa mãe

A quem eu respeito e amo,

Como não amo ninguém!

Salvé, bandeira que lembras

A Pátria que é minha mãe!

 

Feita do sol e da glória,

Bandeira do meu país,

Tens sulcado os mares longínquos

Em tanto dia feliz

E ganho tanta batalha,

Bandeira do meu país!

 

Oh! Bandeira azul e branca!

Azul como o belo céu,

Branca, cor dos brancos anjos…

Que grande encanto é o teu!

As cores da nossa bandeira

Vieram ambas do céu!

 

Grava-te bem na minha alma,

Bandeira minha querida!

Que eu nunca em vida esqueça

De que à Pátria devo a vida,

O sangue, a glória, tudo,

Bandeira minha querida!

 

Salvé, bandeira formosa.

Bandeira do meu país,

Que por ele é minha vida,

E que eu morria feliz,

Se na morte me abraçasses,

Bandeira do meu país!

 

Porque eu te amo no mundo,

Como não amo ninguém,

Salvé, bandeira que lembras

A pátria que é minha mãe!

Compõe ainda o hino do colégio, de feição católica e nacionalista. «Nós queremos ser filhos/ Da Pátria sem rival/ Queremos a grandeza/ Do nosso Portugal» era o refrão do Hino do Colégio Via Sacra.

Mas não era só no versejar que estava a sabedoria deste jovem jornalista que buscou a sua primeira sapiência nos rigores de um Seminário.

Nas suas prioridades Salazar tinha certamente o objectivo de lidar com as opiniões e conduzi-las conforme lhe interessava.

Buscou nas leituras da especialidade e fez-se perito na arte de manipular orientações.

Salazar era mestre em orientar as vontades como se prova num dos textos por ele escritos no Ecos da Via Sacra: «Sabeis, meus amigos, o que é dizer uma falsidade num jornal?».Pergunta Oliveira Salazar, para ele próprio responder:«É envenenar as almas singelas que o crêem, é ludibriar os que em nós confiam, é desorientar os que por si não podem averiguar da veracidade de todas as afirmações».

«Que respeito, meus amigos, nos não deve merecer a imprensa tão útil e tão prejudicial, e com que cuidado não devemos pensar os nossos artigos e pesar as afirmações que neles fazemos! Que nunca a nossa pena se desonre com uma falsidade, nem a nossa boca se manche com uma mentira», defendia o prefeito Salazar no jornal do Colégio da Via Sacra.

Outros meios foram ainda empregues por Salazar para moldar a personalidade dos jovens como «o teatro moral e educador e conferenciais de carácter social, quando as circunstâncias o permitiram, sem prejuízo do seu aproveitamento literário», evidencia o cónego Barreiros.

A ida de Salazar para o Colégio da Via Sacra pode ter influído na mudança de rumo da vida do jovem que, em 1908, era novo demais para ser ordenado padre. Dois anos depois, quando deixou a Via Sacra, António de Oliveira Salazar abandonou a intenção de se ordenar e, como os estudos não lhe davam equivalência, requer os exames oficiais do Curso Geral dos Liceus que conclui após dois exames.

Para trás deixa dois anos que marcaram o rumo inicial do colégio fundado por António Barreiros, como o próprio cónego reconhece no relatório do primeiro ano de actividade:

«Não posso deixar de me referir aqui à lembrança feliz do meu auxiliar neste colégio, Sr. Salazar, dum pensamento por semana, ideia que abracei com entusiasmo», escrevia o proprietário da Via Sacra que, mais adiante explicava em que consistia esse método: «Todas as semanas aos domingos, o dia principalmente destinado à educação moral, era explicado aos alunos um assunto sintetizado numa frase facilmente fixavel, em forma de provérbio, que ficava legível num quadro, na sala de estudo. Este pensamento sobre assuntos religiosos, morais, cívicos, sociais, etc. governava toda a semana. Durante toda ela o aluno via diante de si, da sua carteira de estudo aquele pensamento que lhe recordava uma boa acção que devia praticar para conseguir dela o hábito».

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