POESIA AO AMANHECER – 74 – por Manuel Simões

Leopoldo de Luis – Espanha

( 1918 –  2005 )

GENTES DO ENTARDECER

Gentes do entardecer, rosto de crepúsculo;

acostumai-vos a olhar as asas

da luz. Um belo dia

a manhã romperá.

Línguas de pedra, ouvidos de silêncio:

preparai para a fala

vossa mudez, vossa falta de ouvido. Um dia

a palavra soará.

Ilhas de solidão, pedaços de mágoa:

abri as diminutas pátrias

de cada um. Pode ser que um dia

se unam as terras separadas.

Corpos de ignomínia e sombra: nunca

vos esqueçais de florescer dentro da alma.

Talvez um dia, talvez um dia

possais dizer “agora” à esperança.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Córdoba. Crítico de poesia. Obra poética: “Sonetos de Ulisses y de Calipso” (1944), “Alba del hijo” (1946), “Huésped de un tiempo sombrio” (1948), “Los imposibles pájaros” (1949), “Elegia en otoño” (1952), “El extraño” (1955), “Juego limpio” (1961).

Carlos Bousoño – Espanha

( 1923 –   )

DE LONGE

Passa a juventude, passa a vida,

passa o amor, a morte também passa,

o vento, a amargura que trespassa

a pátria densa, adormecida, imóvel.

Adormecida, em sonho, para sempre, esquece.

Mortos e vivos estão na mesma massa;

dormem igual destino, ventura escassa.

Pátria, profundidade, perdida pedra.

Perdida pedra, fundida, vivos, mortos.

Espanha inteira já dorme a sua história.

Os campos tristes e os céus bem hirtos.

Está no papel escrita a tua glória:

querer edificar sobre os desertos;

aspirar à luz mais ilusória.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Boal (Astúrias). Publicou uma “Teoria da Expressão Poética”. Da sua obra, destacam-se os livros de poesia: “Subida al amor” (1945), “Primavera de la muerte” (1946), “Hacia otra luz” (1950), “Noche del sentido” (1957). Reuniu a sua obra poética em “Primavera de la muerte. Poesías Completas 1945-1998” (1998).

Gabino Alejandro Carriedo – Espanha

( 1923 – 1981  )

TEORIA DA AGRICULTURA

Surge o lavrador com a sua amarela carga de pães

já semi-cosidos.

Vem pelo caminho o lavrador meio adormecido

com a pesada carga dos anos,

saúda o próximo com a calejada mão

e contempla, que pena, a terra tão bonita,

com a sua mancha de sol, e o silêncio, e os primeiros cantos dos grilos

quando os pássaros começaram a dormir,

que pena, com o difícil que está a vida

pensa que não compensa moer os ossos,

fazer-se velho e sentencioso, ganhar rugas

enquanto se ouve, idêntico, o toque do sino,

enquanto o filho salta da lavoura ao quartel

e vive-versa.

[…]

Pelo adormecido caminho vem o lavrador

e olha as formigas, que pena, tão minúsculas,

tão esquecidas que qualquer as pisa

sem que sinta, por isso, violados

os Direitos do Homem.

Vem para ceder ao filho a ferramenta.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Palencia. Foi co-director das revistas “Pájaro de paja” e “Poesía de España”. Obra poética: “Poema de la condenación de Castilla” (1946), “Del mar, el menos” (1952), “Alas cortadas” (1959), El corazón en un puño” (1961).

José Hierro – Espanha

(1922 – 2002)

REPORTAGEM (fragmento)

Daqui, desta prisão, poderia

ver-se o mar, seguir-se o giro

das gaivotas, tomar o pulso

ao bater do tempo vivo.

Esta prisão é como

uma praia: nela está tudo

adormecido. As ondas quebram

quase a seus pés. O Verão,

a Primavera, o Inverno,

o Outono, são caminhos

exteriores que outros andam:

coisas sem vigência, símbolos

mutáveis do tempo. (O tempo

aqui não tem sentido.)

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Madrid. Obra poética: “Tierra sin nosotros” (1947), “Alegría” (1947), “Con las piedras, con el viento” (1950), “Estatuas yacentes” (1953), “Cuando sé de mi” (1957), “Poesía del momento” (1957).

José Maria Valverde- Espanha

( 1926 – 1996 )

A MANHÃ (fragmento)

Na manhã, no seu fino e molhado

ar, sobes e voltas para casa

entre os falatórios e as tarefas.

Coroam-te os ruídos do mercado

e o do carpinteiro que à porta

põe o pote da cola e lá trabalha;

o triciclo da carga vai levando

a boa nova, porque tu aqui voltas

com teu cesto, carregada de milagres;

acompanha-te o leite, como criança

que gatinha e rola e se mancha;

o queijo, denso espaço de pureza

concreta e perfurante; e o fulgor

antigo do azeite, a verdura

ainda viva, surpreendida no sono,

as batatas mineiras e pesadas

da tendência para o solo, os tomates

de fresco calafrio; os pedaços

cruéis da carne e sobretudo

o nobre cheiro do pão e seu rugoso

contacto de ferramenta.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Valencia de Alcantara (Cáceres). Da sua obra poética assinalam-se: “Hombre de Dios” (1947), “La espera” (1949), “Versos del domingo” (1954), “La conquista de este mundo” (1960), “Ser de palabra” (1976), “Poesía, 1945-1990” (1990).

José Manuel Caballero Bonald – Espanha

( 1926  –    )

O CONTORNO DA HISTÓRIA

O que com mão incerta traça

do coração o próprio emblema

sobre o pó, também ali desenha

o vazio da sua história, sinal

de proféticos limites que se expandem

entre o cascalho da escravidão.

Glorioso é o instante

em que o amor confunde as suas fronteiras

com a vida; limite de onde o homem

circunda o fio da sua liberdade

com fugazes silhuetas opressoras,

imagem caída sobre um pouco

de terra, última forma inerte

desprendida do tempo, carnal

contorno esquivo da história.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Jerez de la Frontera. Estudioso do folclore espanhol, publicou “El cante jondo” e “El baile andaluz”. Obra poética: “Poesía” (1948), “Las adivinaciones (1948), “Memorias de poco tiempo” (1954), “Anteo” (1956), “Las horas muertas (1959), “El papel del coro” (1962).

Angel Crespo – Espanha

( 1926 – 1995 )

O PÃO MORENO

O pão moreno sabe a terra negra

sob a qual há mortos submersos,

sabe um pouco a pesebre

e sabe à boca de animal inteiro.

[…]

Quando se lavra a terra

tem-se na algibeira um pão moreno

e depois, o comê-lo,

sabe um pouco a suor, sabe a raízes

e crepita entre os dentes.

Ao erguer da cama, quando o sol levanta,

come-se pão moreno

e então sabe a dia

e a mulher sabe ao pão pela manhã.

Espesso, endurecido pela cosedura,

com sabor às mais íntimas palavras,

com o calor das coisas que se amam

e o odor da terra quando chove,

comemos pão moreno em Alcolea

sem nos olharmos, sentados junto ao fogo.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Ciudad Real. Traduziu “Poemas de Alberto Caeiro” (1957) e organizou uma “Antología de la nueva poesía portuguesa” (1961). Estudioso das literaturas portuguesa e brasileira, é também autor de uma biografia de Fernando Pessoa. Da sua extensa obra poética, assinalam-se: “Una lengua emerge” (1950), “La pintura” (1955), “Todo está vivo” (1956) “Puerta clavada” (1961), “No sé como decirlo” (1965), “Donde no crece el aire” (1981), “Iniciación a la sombra” (1996).

Carlos Barral – Espanha

( 1928 – 1989)

ENTRE TEMPOS (fragmento)

Um pouco mais. Um pouco mais de tempo.

Partículas de mundo mais velozes

desbordam do seu cálculo.

Poderia

somar o que não existe, como conta

o remador suas remadas, uma e outra,

sem saber quantas faltam, sem se voltar

para ver a ponte imóvel, meditando

os pássaros que mudam de postura

com as asas abertas sobre as bóias…

[…]

Fomos uma espécie?

Séculos de minério,

de subterrânea obstinação foram

diferentes a princípio, mais comuns

do que azul foi o ar que enterravam?…

Ou foi sempre este vidro

a mesma pausa imemorial que agora

sólida entre memórias nos divide?

De pele a pele o tempo heterogéneo

alonga a sua galeria ameaçada.

Edificamos sobre fendas.

Ou que cidade

fundamos instantânea?

(traduçãode Egito Gonçalves)

Nasceu em Barcelona, onde dirigiu uma empresa editorial. Alguns títulos da sua obra poética: “Las águas reiteradas” (1952), “Metropolitano” (1957), Diecinueve figuras de mi historia civil” (1962).

Jesús López Pacheco – Espanha

( 1930 – 1997)

PARA ANTONIO MACHADO

Peguei no papel e apoiei-o

sobre um livro de versos de Machado.

– Machado, meu amigo,

peço que me perdoes

ter-te comigo na cadeia,

mas pareces-te tanto com um rio,

tuas canções são tão de água,

és mais velho que eu e sabes tanto

do amor e do frio,

do medo e do espanto,

a tudo o que existe amaste tanto

e partiste tão cansado…

Além disso é tão triste

estar na prisão só e sem Machado.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Madrid. Da sua obra poética sublinhamos: “Dejad crecer este silencio” (1953), “Pongo la mano sobre España” (1961), “Canciones del amor proibido” (1962), “Mi corazón se llama Cudillero” (1962), “La hoja de parra” (1973, 2ª ed. 1997), “Asilo poético: poemas escritos en Canadá” (1992).

Claudio Rodríguez – Espanha

( 1934 – 1999 )

ALTO JORNAL

Ditoso é aquele que um dia sai humilde

e anda pelas ruas como em tantos

outros dias da vida e nada espera

e de súbito, que é isto?, olha ao alto

e vê, põe o ouvido ao mundo e ouve,

anda e sente a subir entre os seus passos

o amor da terra, e continua, e abre

sua real oficina e em suas mãos,

brilha limpo o seu ofício e no-lo entrega

do coração porque ama e ao trabalho

tremendo vai, como criança que comunga

mas sem saber dentro de si, e quando

se dá conta por fim de como tudo

foi simples e após o dia ganho,

à casa volta, alegre, e sente alguém

que à sua porta bate e não é em vão.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Zamora. Da sua obra poética assinalam-se: “Don de la ebriedad” (1953), “Conjuros” (1958), “El vuelo de la celebración” (1976), “Casi una leyenda” (1991).

José Agustín Goytisolo – Espanha

( 1928 – 1999 )

A RECORDAÇÃO

Assomo ao medo, escuto

as vozes que ainda ressoam,

que sobem da terra,

gritando nomes, datas,

lugares de traição,

crimes absurdos,

e involuntariamente tremo

pela minha vida, pelo meu

pedaço de bandeira,

pela minha casa e tudo

o que fui resgatando

do monte de ruínas

que deixaste ao partir

para esse mar soturno;

lá onde permaneces

tão incrivelmente

calada…

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Barcelona. Traduziu, para castelhano, o poeta italiano Cesare Pavese. Da sua obra poética destacamos: “El retorno” (1955), “Salmos al viento” (1958), “Claridad” (1959), “Años decisivos” (1961), “Del tiempo y del olvido” (1977), “Sobre las circunstancias” (1983), “Cadernos de El Escorial” (1995).

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