ALEIXO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

No Algarve, na primeira metade do século XX, irrompe uma poderosa corrente do cancioneiro popular português, a qual recebe o nome do poeta semi-analfabeto que lhe abre as comportas: António Aleixo. Quem apontou essa corrente foram o artista plástico Tóssan e o professor de liceu Joaquim Magalhães. Aleixo diverte-se com a ocorrência:

Não há nenhum milionário

que seja feliz como eu:

tenho como secretário

um professor do liceu.

 Não pára de rir das circunstâncias em que vive e até da sua própria aparência. E quanto mais ri mais certeira vai sendo a pontaria de Aleixo:

 Sei que pareço um ladrão…

mas há muitos que eu conheço

que sem parecer o que são

são aquilo que eu pareço.

 Brinca até com a sua profissão de “cauteleiro”:

 De vender a sorte grande,

confesso, não tenho pena;

que a roda ande ou desande

eu tenho sempre a pequena.

 Ribanceira abaixo, aí vem a corrente de Aleixo, cachão contra as injustiças (lembremo-nos que estamos em plena ditadura salazarista, em que impera a Censura):

  És feliz, vives na alta                               

e eu de ratos como a cobra.

Porquê? Porque tens de sobra

o pão que a tantos faz falta.

 

Quem nada tem, nada come;

e ao pé de quem tem comer,

se disser que tem fome,

comete um crime, sem querer.

Leave a Reply