José Maria Valverde- Espanha
( 1926 – 1996 )
A MANHÃ (fragmento)
Na manhã, no seu fino e molhado
ar, sobes e voltas para casa
entre os falatórios e as tarefas.
Coroam-te os ruídos do mercado
e o do carpinteiro que à porta
põe o pote da cola e lá trabalha;
o triciclo da carga vai levando
a boa nova, porque tu aqui voltas
com teu cesto, carregada de milagres;
acompanha-te o leite, como criança
que gatinha e rola e se mancha;
o queijo, denso espaço de pureza
concreta e perfurante; e o fulgor
antigo do azeite, a verdura
ainda viva, surpreendida no sono,
as batatas mineiras e pesadas
da tendência para o solo, os tomates
de fresco calafrio; os pedaços
cruéis da carne e sobretudo
o nobre cheiro do pão e seu rugoso
contacto de ferramenta.
(tradução de Egito Gonçalves)
Nasceu em Valencia de Alcantara (Cáceres). Da sua obra poética assinalam-se: “Hombre de Dios” (1947), “La espera” (1949), “Versos del domingo” (1954), “La conquista de este mundo” (1960), “Ser de palabra” (1976), “Poesía, 1945-1990” (1990).

