POESIA AO AMANHECER – 79 – por Manuel Simões

José Maria Valverde- Espanha

( 1926 – 1996 )

A MANHÃ (fragmento)

Na manhã, no seu fino e molhado

ar, sobes e voltas para casa

entre os falatórios e as tarefas.

Coroam-te os ruídos do mercado

e o do carpinteiro que à porta

põe o pote da cola e lá trabalha;

o triciclo da carga vai levando

a boa nova, porque tu aqui voltas

com teu cesto, carregada de milagres;

acompanha-te o leite, como criança

que gatinha e rola e se mancha;

o queijo, denso espaço de pureza

concreta e perfurante; e o fulgor

antigo do azeite, a verdura

ainda viva, surpreendida no sono,

as batatas mineiras e pesadas

da tendência para o solo, os tomates

de fresco calafrio; os pedaços

cruéis da carne e sobretudo

o nobre cheiro do pão e seu rugoso

contacto de ferramenta.

(tradução de Egito Gonçalves)

Nasceu em Valencia de Alcantara (Cáceres). Da sua obra poética assinalam-se: “Hombre de Dios” (1947), “La espera” (1949), “Versos del domingo” (1954), “La conquista de este mundo” (1960), “Ser de palabra” (1976), “Poesía, 1945-1990” (1990).

Leave a Reply