Está praticamente tudo dito sobre a greve geral de 14 de Novembro. Até pelos ensurdecedores silêncios que alguns preferiram assumir perante um acontecimento nacional que desta vez ultrapassou fronteiras e perante o que ele traduz de confronto com uma realidade que ameaça trazer-nos muitos amargos de boca. O chefe de Estado e o primeiro ministro, por exemplo, preferiram hipocritamente louvar quem trabalhou, fingindo ignorar que grande parte deles o fez, como muitos publicamente o declararam, apesar de se identificarem com os objectivos da greve, mas porque a dramática situação económico-social não lhes permite abdicarem de um dia dos seus magros salários. E outros, no sector privado, porque não podem arriscar os seus postos de trabalho. Não é segredo para ninguém que a precariedade laboral e salarial sempre foi uma forma de opressão. Lamentável é que, ainda por cima, isto seja usado como arma de arremesso. Presidente da República e primeiro-ministro deviam saber que também o são daqueles que, com evidente sacrifício, optaram por fazer greve. Faltou-lhes cultura democrática para, num gesto de nobreza política, louvarem a forma exemplar como os grevistas utilizaram as armas de que dispõem, os seus direitos cívicos, para intervirem nos destinos do país. A condenação pública de uma política de desastre e a apresentação de propostas alternativas são formas legítimas de intervenção política.
Mais uma vez pudemos registar o cinismo com que uns quantos não se cansam de louvar o direito à greve, não deixando de acrescentar sempre um reticente mas. Pois é, encaram o direito à greve como uma dádiva concedida aos trabalhadores, mas que estes devem abster-se de usar, porque causa incómodos. Não lhes permite a empedernida insensibilidade social interrogarem-se sobre qual a eficácia da greve se for inócua. Para os que se acham detentores do poder por direito divino o direito à greve é óptimo, desde que não seja usado. É como a caridadezinha, ficam de bem com as suas consciências. É excelente para enfeitar o regime democrático, mas é um prejuízo para os beneficiários do sistema. Este é o discurso oficial do poder e seus acólitos, que enoja.
Segunda nota, sobre a transnacionalidade desta greve geral. Tenho escrito nesta coluna quando me venho referindo à crise, com alguma frequência, que uma crise global exige respostas também globais, objectivos, solidariedades, experiências, propostas, lutas globais. Ao nível do poder os responsáveis só parecem interessados em concertar medidas cada vez mais penalizadoras dos sectores mais atingidos pela crise. A resposta transnacional tem de partir de baixo, daqueles a quem, de facto, interessa defender as conquistas desta Europa social que constituiu a marca mais saliente e mais avançada do seu processo histórico. Creio que as jornadas de 14 de Novembro foram um primeiro passo para o muito que há a fazer neste domínio.
Uma nota final. Quem beneficiou com os desacatos marginais e violentos dos confrontos com a polícia que se seguiram ao comício com que a CGTP encerrou a jornada de luta em Lisboa? Quem estava interessado – e largamente aproveitou – em desviar as atenções e os debates públicos da greve, das suas motivações, dos seus resultados, e concentrá-los no aspecto negativo das erupções violentas que não passaram de um episódio muito localizado? Reconhecemos que a PSP actuou com correcção, não lhe cabendo mesmo a responsabilidade da decisão sobre o momento da intervenção que, se antecipado contra os que começaram a retirar pedras da calçada, poderia ter assumido um carácter mais preventivo. Mas quem está interessado, na actual conjuntura, na exibição de força?
Haja tino, porque hoje as erupções de violência ocorrem à margem e, até, contra as manifestações organizadas. Mas pode estar a criarem-se condições para que as manifestações organizadas sejam cada vez mais violentas. Também é a isso que Philippe Engelhard chama a Terceira Guerra Mundial, alertando para o facto de ela já aí estar[1]. Quem, arrogantemente, vai continuando a proclamar que nós não somos a Grécia porque o nosso povo aguenta, ai não que não aguenta, pode vir a ter despertares sobressaltados. Ainda não foi há muitos anos e ainda há por aqui quem se recorde como, com um susto de uma madrugada de Abril, esses heróis de pacotilha deram com os calcanhares no rabo e só pararam no Brasil. Esses nunca aguentam nada.
19 Novembro 2012
[1] ENGELHARD, Philippe – La troisième guerre mondiale est commencée, Arleá, Paris, 1999

Excelente!