EM VIAGEM PELA TURQUIA – 47 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Os yalı são “construções «modernas», ou as suas imitações, de altas e estreitas janelas, de grandes beirais, de chaminés finas e com grandes varandas envidraçadas e fechadas”, como nos esclarece Pamuk (pág. 57), que o grande desenhador das «paisagens do Bósforo», Antoine Ignace Melling, 1763-1831, mostra nas suas gravuras.

A obra Voyage pittoresque de Constantinople et des rives du Bosphore é um belíssimo exemplar da literatura de viagens do início do século XIX. O seu autor, o artista francês Antoine Ignace Melling (1763-1831), chegou a Istambul em 1784 para um périplo pelo Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor. O encantamento sentido na antiga capital do Império romano do Oriente e o facto de ter sido nomeado, em 1795, arquitecto do sultão Selim III, acabaram por levá-lo a aí permanecer durante 18 anos. Antoine Melling teve, assim, a oportunidade de observar de perto a corte otomana, desenhando detalhadamente palácios reais, cenas do quotidiano palaciano e diversos aspectos da paisagem do Bósforo e do Corno Dourado. Regressado a Paris, iniciou a publicação da sua “viagem pitoresca” em 1807. Composta por 48 gravuras realizadas a partir dos desenhos de Melling, acompanhadas por um breve texto, a obra seria completada em 1819. O exemplar da Biblioteca de Arte, comprado por Calouste Gulbenkian, tem a particularidade de ter pertencido à biblioteca particular da Duquesa du Berry e reunir as 48 gravuras num só volume. (v. http://www.biblarte.gulbenkian.pt/index).

Orhan Pamuk, no livro que vimos citando, dedica todo um capítulo ao artista francês, que intitula «AS PAISAGENS DO BÓSFORO NOS DESENHOS DE MELLING».

Gravura de Melling, cerca de 1800, do Palácio do Sultão Hatice

(in http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Hatice_Sultan_saray_Melling.jpg)

Para aguçar o apetite do leitor por este libro de Pamuk, atentemos nesta pequena transcrição:

«A contemplação das gravuras de Melling é uma consolação nos momentos em que me esforço por me convencer de que o passado, por mais que se diga, foi brilhante, a consolação de alguém que, como eu, é demasiado sensível ao poder da literatura e da arte do Ocidente, e que, assim, pode por vezes cair numa espécie de nacionalismo istambulense. Mas a tristeza que vem do sentimento de que toda aquela beleza desapareceu, e também todos aqueles edificios, é indissociável desta consolação. Além disso, nos momentos de entusiasmo transbordante, a razão lembra-me que é precisamente este sentimento de perda que constitui a beleza dos desenhos de Melling. Talvez por isso eu olhe para eles com a intenção de me magoar um pouco.» (pág. 69)

O dia de hoje está a chegar ao fim no que a visitas a monumentos respeita. Amanhã, 7.º dia de viagem, iremos visitar outras maravilhas desta bela cidade de Istambul, aproveitando o momento para fazer uma rectificação ao texto publicado na passada 6.ª feira, dia 16 de Novembro, dado que as duas primeiras fotografias que ilustram o texto foram tiradas na Mesquita Rüstem Paşa, também em Istambul, fotografias essas que vamos repetir de seguida.

  A Célia ouvindo a guia

Aproveitando esta rectificação, falemos um pouco da Mesquita, que é mais uma das construídas pelo grande arquitecto Mimar Sinan, para o genro de Solimão I, o Grão-Vizir Rüstem Paşa, marida da sultana Mihrimah, filha de Solimão e de Roxelana, tendo a sua construção decorrido de 1560 a 1563.

 Do Guia do American Express sobre a Turquia, em referência à mesquita, transcrevemos:

 «A assombrosa riqueza da sua decoração é prova da enorme fortuna que o corrupto Rüstem Paşa conseguiu roubar. A maior parte do interior está coberta de azulejos de İznik da melhor qualidade. Os quatro pilares estão adornados de azulejos de um único padrão, mas o resto da sala de orações é um mostruário de diferentes padrões, do abstracto ao floral. Alguns dos melhores azulejos encontram-se nas galerias, fazendo desta mesquita a mais rica em azulejaria.»

 Também esta mesquita foi construída sobre um complexo de lojas, de cujas rendas viria a financiar-se. É a mesquita de Istambul com mais azulejos, os quais cobrem o nicho em forma de abside, de tecto abobadado, “mihrab”, que indica a direcção da cidade de Meca, orientando os muçulmanos nas cinco orações diárias, que realizam voltados para esta cidade. A forma deste “mihrab” facilita a difusão das orações na mesquita da pessoa que tem a incumbência de as liderar. Naturalmente por isto, este nicho é, normalmente, o local mais ricamente decorado da mesquita.

A luz e os azulejos do interior da mesquita são magníficos

 À direita do “mihrad” está situado o “minbar”, que é o púlpito de onde o imã profere o sermão (khutba), também coberto com azulejos de İznik.

 Nas mesquitas, o “minbar” é constituído por uma pequena escadaria com um número de degraus que pode variar, mas que normalmente são cinco, que conduz a um estrado descobertro ou encimado com uma pequena cúpula. O imã fica nos últimos degraus, dado que só Maomé teria a dignidade suficiente para se colocar na parte mais alta. Enquanto nas pequenas mesquitas este “minbar” possa não existir, nas grandes mesquitas pode haver mais do que um.

(Continua)

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