GIRO DO HORIZONTE – PALESTINA – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1] O debate na Assembleia-Geral da ONU sobre a candidatura da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) a Estado observador não-membro, veio, mais uma vez, por em relevo a hipocrisia com que os EUA enfrentam as grandes questões relacionadas com a Palestina ou, para ser mais objectivo, com Israel. Não se tratava do reconhecimento do Estado, das suas fronteiras, da sua soberania, dos seus direitos de acordo com inúmeras resoluções da própria ONU. Nada disso. Era, tão só, a passagem da ANP de entidade observadora, que já era, a Estado observador, o que consistia na conquista implícita, ainda que não jurídica, de uma dignidade que todos afirmam reconhecer-lhe mas alguns, como os EUA à cabeça, teimam em bloquear-lhe nos momentos decisivos. E porquê? Apenas porque Israel não quer.

 Telavive tinha medo de que a Palestina conquistasse um estatuto que corresponda ao reconhecimento da sua soberania em território que Israel, ilegitimamente, ocupa e lhe confere acesso a agências especializadas e, acima de todas, ao Tribunal Penal Internacional (TPI). É que este TPI é bom para julgar os outros, os responsáveis dos “Estados-párias”, do “eixo-do-mal”, dos marginais do sistema da globalização, mas nunca os do núcleo duro do sistema e dos seus parceiros.

 A ANP viu aprovada a sua candidatura por larga maioria, 138 dos 193 Estados-membros. Os EUA, humilhantemente, incluíram-se entre os que votaram contra, com alguns parceiros clientes, Israel, obviamente, Canadá, República Checa, Panamá e mais 4 micro-Estados insulares do Pacífico Sul, Ilhas Marshall, Federação Micronésia, Nauru e Palau. 9 no total.

 A argumentação de Washington, como a de Telavive, é de um cinismo revoltante. Que a adesão da Palestina devia resultar dos avanços das negociações bi-laterais com Israel para o progresso do processo de paz. Isto quando Israel bloqueia, sistematicamente, as negociações e prossegue, provocadoramente, uma política unilateral de ampliação de colonatos, contra as decisões da ONU, que inviabiliza qualquer aproximação negocial. Os Acordos de Oslo são, há muitos anos, letra morta. Ou seja, pretendem colocar as pretensões da ANP na dependência total da boa vontade de Israel, o que este sempre tem usado como instrumento de chantagem. Israel só pretende uma coisa, sufocar a Palestina e provocar os palestinianos obrigando-os a optarem entre emigrarem definitivamente aumentando as legiões de refugiados, ou recorrerem a acções de resistência desesperada que justifiquem as incursões militares israelitas.

 A que título se coloca a ascensão da Palestina a Estado na dependência de uma inexistente boa-vontade de Israel? Foi esse o critério que presidiu ao desmembramento da Jugoslávia? E à própria formação de Israel?

 Pretende-se manter a Palestina refém de Israel. E, com a Palestina, a paz no Médio Oriente. Enquanto as grandes questões da Palestina não forem encarados numa perspectiva de busca de soluções construtivas, colonatos, Jerusalém, refugiados, água, não haverá paz duradoira no Médio Oriente. A agitação no mundo árabe vai acabar por recolocar esta questão na ordem do dia. É inevitável. E não é a colossal dissimetria militar favorável a Israel que o vai impedir.

Os EUA estão, há muito, a ser cúmplices de uma política criminosa na Palestina, mas também de uma estratégia suicida. Estratégias assimétricas têm, por todo o lado, posto em questão as aparentes vantagens de potenciais militares dissimétricos. Washington sabe-o, por dolorosas experiências próprias. E a hora da Palestina há-de chegar.

 3 Dezembro 2012

Leave a Reply