A Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a existência de facto de um Estado da Palestina independente, embora ainda não como membro de pleno direito da ONU. Decisão justa, porém incompleta e tardia, assumida após longas décadas de factos consumados que poderão muito bem tornar impossível que se cumpra a vontade de uma esmagadora maioria, 70 por cento, dos países do mundo e, acima de tudo, se respeitem os direitos legítimos de todos os palestinianos – os dos territórios e os da diáspora forçada a que milhões continuam submetidos.
Neste momento de legítima alegria dos palestinianos a principal questão que se coloca é, porém, bastante sombria: terá a Palestina chegado a tempo para sobreviver e viver como entidade, como Estado?
Apreciando objetivamente a situação, o prato das circunstâncias negativas é bastante mais pesado do que o das positivas, aliás na razão inversa dos conceitos de democracia em que se diz assentar o mecanismo da ONU e da chamada comunidade internacional.
Assim é. O mundo está a funcionar de uma maneira em que os 4,6 por cento dos países (nove ao todo, dos quais apenas dois contam) que votaram contra a Palestina conseguem condicionar, de modo talvez determinante, uma decisão tomada por 138 nações do mundo, quase três quartos dos membros da ONU.
Israel e os Estados Unidos da América – é destes dois países que se trata – têm muito mais do que a arrogância de minimizarem, ignorarem e até considerarem “infeliz e contraproducente”, pela voz da senhora Clinton, uma atitude assumida por ampla maioria de países do mundo orientados, sem qualquer dúvida, por uma solução para o problema israelo-palestiniano que hoje parece ser quase consensual: a existência de dois Estados na Palestina. Aliás como determinaram as próprias Nações Unidas no já longínquo ano de 1947, embora agora os palestinianos, por força dos factos consumados que lhes foram impostos, tenham decidido contentar-se com apenas 22 por cento da Palestina histórica, muito menos do que foi decidido há 65 anos.
Mais do que a arrogância, esses dois países têm o poder, um poder suficiente para ousarem fazer de conta que a grande maioria da Assembleia Geral da ONU nada de importante decidiu, e para ameaçarem até os palestinianos com várias represálias, expressamente as económicas mas sabemos muito bem quais são as outras – que o diga o povo de Gaza através do recente e sangrento castigo que sofreu.
O reconhecimento do Estado da Palestina está em causa porque em causa está de facto, no terreno, a solução de dois Estados. Por isso os dirigentes de países que reclamam “negociações sem condições” são pelo menos uma de três coisas, ignorantes, irresponsáveis ou cínicos.
É óbvio que há uma condição em cima da mesa onde israelitas e palestinianos deveriam estar sentados para negociar a tal solução: a suspensão imediata da colonização dos territórios ocupados de Gaza e Jerusalém Leste. A colonização, que é uma anexação gradual por Israel de território que não lhe pertence, inviabiliza a solução de dois Estados. Não faz qualquer sentido procurar um entendimento para permitir a existência livre e plena de dois países numa determinada região, que neste caso se chama genericamente Palestina, enquanto uma das partes prossegue paulatinamente a anexação da outra parte. Estamos perante um cúmulo do absurdo quando se pretende negociar a definição do futuro funcionamento de uma realidade enquanto essa realidade está a ser alterada e deteriorada todos os dias. Exigir aos palestinianos que negoceiem assim é impor-lhes a rendição – a isso não se chama negociar.
De tempos a tempos os dirigentes dos Estados Unidos pedem a Israel que suspenda a colonização, nem que seja por uns meses. Isso é quanto basta para o governo de Israel acelerar ainda mais a ocupação, sendo que depois em Washington não se houve sequer mais um pio sobre o assunto.
O mundo fala na “solução de dois Estados” e ao mesmo tempo vai assistindo, como se nada acontecesse, à sua inviabilização. E o comportamento israelita, no entanto, fica cada vez mais claro. Enquanto responsabiliza os outros por não quererem negociar, o governo de Netanyahu aproveita o tempo para ir ocupando a Cisjordânia e sobretudo Jerusalém Leste. A seguir, em Janeiro, vêm eleições para as quais o primeiro ministro em exercício se aliou com os extremismos políticos e religiosos que têm como objetivo a criação do Grande Israel, isto é, o controlo sobre toda a Palestina histórica.
Netanyahu já passou por cima da “solução de dois Estados”. A sua estratégia é a instauração do Grande Israel, que irá dinamizar ainda mais se ganhar, como tudo o indica, as próximas eleições.
Por isso a dúvida sobre se o reconhecimento de facto da Palestina não terá chegado tarde.
Tal só não acontecerá se a maioria que o determinou conseguir fazer aplicar no terreno o que decidiu nos votos.
Só que não é assim que o mundo funciona.
